Por Ricardo Rocha
Pode parecer muito radical essa afirmação, mas era exatamente isso que a igreja primitiva professava. Seguir a Cristo era algo muito sério, não podia ser confundido com uma mera ideologia, ou um sistema religioso dominical ou ainda somente um estilo de vida, seguir a Cristo era o que definia toda a vida do indivíduo, eles se chamavam cristãos!
Não só oravam pelos seus inimigos mas os amavam; davam a outra face, andavam uma segunda milha, não injuriavam, mas abençoavam, deixavam para trás casa, bens e família, carregavam dia-a-dia sua cruz e o que o mundo considerava ganho era para eles perda, na verdade o perder era ganhar e isso se aplicava à própria vida deles, tanto que o martírio era uma prova de quem era verdadeiramente cristão, era esperado e entendido como o mais alto grau do discipulado.
A igreja primitiva estava vivendo em uma sociedade sob o governo Romano que tinha inicialmente uma política básica em questões religiosas, a tolerância! O imperador queria paz e ordem no império bem como o dinheiro das taxas que eram coletadas nas províncias e a forma como mantinha a paz era a tolerância religiosa para com as nações que haviam sido conquistadas, desde que a nova religião não fosse uma ameaça ao império. O problema foi que os cristãos era vistos como uma ameaça e começaram a ser perseguidos. Atenágoras (176 d.C.), filósofo grego, resumiu 3 denúncias contra o cristianismo na época:
1. Canibalismo – Os cristãos eram vistos como canibais. Eles se reuniam para a Ceia do Senhor, esse era o momento central na adoração e a linguagem bíblica que usavam era a mesma linguagem que Jesus usou: “este é meu corpo e meu sangue”, e ainda em João 6 Jesus disse que aqueles que não comessem sua carne e não bebessem seu sangue não teriam parte com Ele. Essa linguagem era um escândalo para os romanos que assumiam que os cristãos estavam comendo e bebendo a carne e o sangue de Jesus em cerimônias religiosas, onde sentavam e comiam juntos e faziam com singeleza e alegria nos corações; então os romanos os odiavam por causa dessa abominação.
2. Incesto – Os cristãos era acusados de terem relacionamentos incestuosos. Os cristãos se relacionavam entre si como irmãos e irmãs porque essa era a linguagem de Jesus; os seus seguidores eram quem Ele chamava de mãe, irmãos e irmãs (Mc 3:32-35). Jesus ensinava que a forma de relacionamento era como em uma família e por causa disso os romanos interpretavam erroneamente o relacionamento deles, pensando que os irmãos casavam entre si e praticavam incesto.
3. Ateísmo - Os cristãos eram acusados de serem ateus. Perseguição não era generalizada no império, mas surgia em alguns pontos. Se o império passasse por pragas, fome, guerras, etc, os romanos associavam os revézes como fruto de algo espiritual. Eles eram extremamente religiosos e acreditavam que coisas ruins aconteciam porque os deuses estavam zangados pois não estavam recebendo adoração e os cristãos eram culpados de não adorarem os deuses do panteão, eram acusados de ateísmo.
Em ocasiões como essa o imperador Décio ordenou que todos fossem ao templo local e sacrificassem aos deuses para apaziguá-los e a sorte ser restaurada no império. Nos templos pagãos havia um soldado romano que coletava o nome da pessoas sendo testemunha que ela ofereceu sacrifício dando ao adorador um recibo chamado “libeli”, um certificado confirmando sua adoração, confirmando seu dever cívico e religioso diante do império romano para que os tempos maus fossem embora. Muitas vezes soldados paravam as pessoas nas ruas e fiscalizavam se elas tinham o recibo, se tinham prestado adoração aos deuses pagãos, caso não tivessem o recido eram forçadas a ir ao templo sacrificar.
Os cristãos proclamavam que existia somente um Deus, eram monoteístas e isso soava como impiedade pura para os romanos, eram considerados ateus, descrentes porque negavam outros deuses, os monoteístas era tão ruins quanto os incrédulos.
O império romano que tolerava as religiões das nações conquistadas começou a ver o cristianismo como uma ameaça, um perigo real ao governo, uma sociedade secreta, canibal, incestuosa e ateísta que não se submetia ao imperador, somente a Jesus e a tolerância religiosa ruiu. A perseguição veio forte!