quinta-feira, 23 de maio de 2013

O que são as paixões da mocidade?

Por John D. Street


Nas Escrituras, o desejo cobiçoso é muito mais que anseios sexuais eróticos. Por exemplo, 2Tm 2.22 é um texto conhecido para tratar da tentação sexual em jovens de ambos os sexos. Mas o que são as "paixões da mocidade" mencionadas no contexto? Paulo está advertindo Timóteo sobre os falsos mestres que são uma ameaça para sua congregação. Como um pastor jovem ele é encorajado a confrontar esses homens que dividiram o rebanho. O apóstolo, então,  usa a analogia da purificação dos vasos de desonra em uma casa (i.e., a igreja) para que esse vaso seja santificado e mais útil para o Mestre. Imediatamente a seguir no v.23, ele adverte quanto ao envolver-se em "questões insensatas e absurdas, pois sabes que só engendram contendas" com estes falsos mestres. Então, as "paixões da  mocidade" não têm nada a ver com anseios sexuais, mas sim com as presunções arrogantes de um jovem pastor que pensa que pode convencer homens habituados às "contendas de palavras", ganhar argumentos e prevalecer nas disputas. Em vez disso, Paulo diz, "evita, igualmente, os falatórios inúteis e profanos."

Purificando o coração da idolatria sexual. Nutra publicações, pp.19-20.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

A Igreja Sempre Perseguida

Por Thomas Tronco

“E Saulo consentia na sua morte. Naquele dia, levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém; e todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judeia e Samaria. Alguns homens piedosos sepultaram Estêvão e fizeram grande pranto sobre ele. Saulo, porém, assolava a igreja, entrando pelas casas; e, arrastando homens e mulheres, encerrava-os no cárcere” (At 8.1-3).

O texto acima descreve a primeira perseguição severa contra a igreja cristã. Por um lado, o ódio do mundo
contra a igreja era esperado, já que ele prenunciado por Jesus: “Lembrai-vos da palavra que eu vos disse: não é o servo maior do que seu senhor. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros” (Jo 15.20a). Por outro lado, é bem possível que os irmãos de Jerusalém tenham se surpreendido com a mudança brusca de sentimento e de tratamento da sociedade dos seus dias. Isso porque o início da igreja foi marcado pelo sentimento de simpatia da comunidade judaica: “Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo” (At 2.46,47a).

Talvez aqueles irmãos se perguntassem: “O que mudou?”. A resposta é encontrada no sexto capítulo de Atos: “Estêvão, cheio de graça e poder, fazia prodígios e grandes sinais entre o povo. Levantaram-se, porém, alguns dos que eram da sinagoga chamada dos Libertos, dos cireneus, dos alexandrinos e dos da Cilícia e Ásia, e discutiam com Estêvão; e não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito, pelo qual ele falava” (At 6.8-10). A pregação do Evangelho, o testemunho de vida e a sabedoria de Deus para responder às acusações fizeram de Estêvão e dos demais crentes pessoas odiadas pelos inimigos de Deus. O resultado foi o apedrejamento do diácono de Jerusalém e o início de uma acirrada perseguição a todos quantos professassem Jesus Cristo como Deus e salvador pessoal. A partir daí, o texto escrito por Lucas revela uma dinâmica que atravessa a história da igreja de Deus.

Em primeiro lugar, o mundo persegue a igreja com grande ódio. O capítulo 7 de Atos narra o julgamento e a morte de Estêvão, enquanto o início do oitavo capítulo revela a aprovação de Saulo, conhecido depois da sua conversão como apóstolo Paulo. Sua aprovação talvez se devesse à possibilidade de que ele mesmo, como um dos que vieram da Cilícia (At 6.9), ter sido contradito e envergonhado pela pregação do diácono mártir. Mas se fosse somente por isso, assim que o adversário estivesse morto todo ódio devia cessar, o que nem de perto ocorreu. Na verdade, uma severa perseguição tomou lugar em Jerusalém (At 8.1) e nem mesmo os lares ou seus direitos básicos dos crentes eram respeitados (At 8.3). Com o passar dos dias, o ódio não apaziguado tomou formas mais decididas e cruéis, inclusive em Paulo: “E assim procedi em Jerusalém. Havendo eu recebido autorização dos principais sacerdotes encerrei muitos dos santos nas prisões; e contra estes dava o meu voto, quando os matavam. Muitas vezes, os castiguei por todas as sinagogas, obrigando-os até a blasfemar. E, demasiadamente enfurecido contra eles, mesmo por cidades estranhas os perseguia” (At 26.10,11).

Em segundo lugar, independente do que sinta ou faça o mundo, Deus mantém sua igreja viva e operante. Apesar de a igreja ter respondido à perseguição com uma fuga maciça, nem todos fugiram de Jerusalém, pois os apóstolos permaneceram na cidade e vários irmãos permaneceram na própria região da Judeia. O fato de os líderes da igreja não terem sido exterminados, mesmo estando tão perto dos perseguidores, não se deve a nenhum tipo de imunidade diplomática. Na verdade, eles deveriam ser alvos prioritários dos inimigos e o fato de isso não ter ocorrido revela a proteção de Deus para eles e para as pessoas que foram sendo acrescentadas à igreja daí para frente por meio da fé em Jesus, já que o próprio Paulo revela a existência de várias igrejas na região (Gl 1.22-24). Esse fato surpreendente, apesar de não ser declarado abertamente por Lucas em Atos, é interpretado por meio das palavras de Jesus como uma ação divina: “Edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18).

Por último, também percebemos que o Senhor expande a igreja por meio da perseguição. Há quem olhe para perseguições assim e, cheio de autocomiseração, lamente a má sorte do povo de Deus. Porém, o que ocorreu foi que, tendo de fugir, os crentes foram se radicando em cidades em que passaram a pregar o Evangelho, pelo qual o Senhor salvou pecadores que estavam fora do alcance da pregação antes da perseguição: “Entrementes, os que foram dispersos iam por toda parte pregando a palavra” (At 8.4). Com isso, o avanço das boas novas da salvação tomou um caráter definitivo e oficial que foi fruto de uma profunda transformação da visão e da prática da igreja já estabelecida: “Ouvindo os apóstolos, que estavam em Jerusalém, que Samaria recebera a palavra de Deus, enviaram-lhe Pedro e João” (At 8.14). Desse modo, o Senhor, por um meio misterioso para os crentes daqueles dias — a morte de um líder e a perseguição feroz da igreja —, alcançou pessoas perdidas de todas as partes e amoldou o seu povo ao propósito missionário que traçou para ele. Resumindo, quanto mais a igreja era caçada, mais ela crescia e alcançava novos territórios.

domingo, 12 de maio de 2013

Perigos na interpretação

Por Marcelo Berti

Recentemente escrevi um artigo que chamou a atenção de muitas pessoas por seu conteúdo relativamente polêmico. No post O Papa, Pedro e a Pedra apresentei minha preferência na interpretação do texto de Mateus 16.18, e afirmei que a pedra referida por Cristo naquela passagem, refere-se a Pedro, e não à confissão de Pedro ou a Jesus Cristo. Por ser conhecida como uma interpretação oferecida pelos Católicos, recebi algumas reações à minha proposta de interpretação, afirmando que teria violado o texto, rasgado as escrituras e inserido nas escrituras uma terrível heresia.

O fundamento de tal afirmação é que eu teria interpretado o verso e esquecido do resto das escrituras que apontam para Cristo como o fundamento da igreja (um perigo real e comum que deve ser evitado). Em outras palavras, o equívoco residia na aplicação dos princípios da hermenêutica. Embora tenha completa consciência de como o tema é polêmico e que as opiniões nesse texto são historicamente divergentes, acredito que a interpretação natural do texto é que Pedro é a Pedra (para mais informações, leia o artigo).

Entretanto, aqueles que se opuseram a minha interpretação, apresentaram princípios hermenêuticos que teria violado, o que me faz escrever esse post sobre perigos na interpretação. Usando o texto de Mat.16.18 (e outros exemplos), vou apresentar alguns dos equívocos que normalmente se comete (eu mesmo já cometi) e que fazem muita diferença na interpretação de textos mais difíceis.

A. A confusão entre “regra” e “princípio”

Uma confusão recorrente nos argumentos teológicos, especialmente na internet, é que existem regras hermenêuticas que determinam qual tal interpretação não é possível. Por exemplo, afirmar que Pedro é a pedra em Mat.16.18 é errado por que diante do todo das escritura Cristo é o fundamento da igreja. Logo, a pedra tem que ser Cristo.

Nesse exemplo, o argumento é baseado em um princípio hermenêutico válido, mas usado de modo equivocado. O princípio é: A interpretação da parte deve se conformar com o a informação do todo. Ou seja, em textos mais obscuros a claridade de textos mais claros serve para iluminar o texto a ser interpretado. Entretanto, isso é um princípio hermenêutico, não uma regra hermenêutica, como muitas vezes é aplicado.

A diferença é simples: A regra é fixa, o princípio é flexível. Em outras palavras, a regra delimita, o princípio delineia. Princípios hermenêuticos não foram estabelecidos como regras fixas de um jogo, foram estabelecidas como guias na interpretação, e transformá-los em regras é atribuir uma função para o qual não foram desenhadas. O resultado disso pode ser desastroso.

Por exemplo, algumas pessoas usando esse princípio como regra, fazem com que o TODO da escritura seja SOBREPOSTO sobre a parte interpretada. Inconscientes do que estão fazendo, eles inserem sua visão pessoal do todo, sobre o texto que querem interpretar e inserem sobre o texto suas perspectivas pessoais. Ou seja, o texto (parte)  não pode acrescentar nada ao todo da escritura. Em outras palavras, na tentativa de fazer exegese, fazem eisegese. Em nosso exemplo, o princípio é válido, mas não sua aplicação.

Entretanto, considerando que o princípio é válido, como podemos entender o fato de que Pedro é a pedra, diante da afirmação da escritura de que Cristo é o fundamento da igreja? Para responder a essa pergunta, você terá que ler o artigo.

domingo, 28 de abril de 2013

Deuteronômio: Escrito de Moisés ou uma fraude piedosa?

Por Tiago Abdalla T. Neto

Determinar a autoria e o Sitz im Leben do Deuteronômio é desafiador, desde que a erudição bíblica vem propondo diversas possibilidades para a origem do livro. Sugestões que remontam à época de Moisés até o período pós-exílico são feitas e não se chega a um consenso geral. Portanto, faz-se necessária a exposição das várias propostas de datação do livro e uma conclusão sobre aquela que mais adequadamente faz jus ao texto.

Em 1805, W. M. L. de Wette propôs que o Deuteronômio provinha de uma fonte à parte do restante do Pentateuco, cuja origem se deu no século VII a.C., pouco antes do reinado de Josias. Mais adiante, tal tese fora sustentada por K. A. Riehm e, então, desenvolvida, estabelecida e popularizada entre os eruditos por Julius Wellhausen, em 1876, o qual via a composição do livro por profetas da época de Josias que o esconderam no templo para, em seguida, ser “achado” e dar impulsão à reforma promovida pelo rei, legitimando a adoração central em Jerusalém. Apesar de ser contestada por vários estudiosos, a proposta de uma autoria não mosaica para o livro, dentro do século VII, continua a receber o apoio maior da academia teológica.

sábado, 27 de abril de 2013

Nem demasiadamente justo, nem demasiadamente sábio (Ec 7)

Por Fernando Leite

 16 Não sejas demasiadamente justo, nem demasiadamente sábio; por que te destruirias a ti mesmo? 17 Não sejas demasiadamente ímpio, nem sejas tolo; por que morrerias antes do teu tempo? (Ecleciastes 7)

O versículo que se segue pode ser mal entendido por qualquer um, mas na mão de empresários pode ser um perigo. Note o que é dito no versículo 16: Não seja excessivamente justo nem demasiadamente sábio; por que destruir-se a si mesmo? Qual é a mensagem que ele nos dá ao dizer isso? Será que o que ele quer dizer é: “Seja moderado. Siga a vida com uma pitada de justiça e com uma pitada de injustiça.”? Ou, quem sabe, é o seguinte: “Ser religioso, tudo bem, mas não deixe que isto interfira na sua vida diária, na questão do prazer, na questão dos negócios, na sua vida sexual. Não exagere!” Esta proposta é a proposta popular: nem tanto ao mar nem tanto à terra. Não precisa ser tão justo, não precisa ser muito sábio.

Eu quero enfatizar que as palavras usadas aqui para justiça e para sabedoria, na verdade, fazem parte de uma linguagem, de uma forma de falar sobre como você deve se enxergar. Essa forma hebraica de dizer para não ser excessivamente ou demasiadamente justo traz a idéia de “não banque tal coisa”, “não se faça parecer tal coisa”. A estrutura hebraica aqui comunica esta idéia: “Não banque exageradamente que você é justo!”. Isto não engana ninguém porque ninguém é totalmente justo, mas algumas pessoas parecem querer comunicar essa imagem. Os fariseus fizeram isso. Os fariseus eram hipócritas, e bancavam, de uma maneira exagerada, que eles eram justos. A segunda expressão, quando ele diz “nem demasiadamente sábio”, em hebraico quer dizer “nem demasiadamente sábio para você mesmo”. Ele usa aqui uma forma reflexiva. É você se sentir ou se achar sábio ou, em outra linguagem, é ser sábio aos próprios olhos. Alguém pode desenvolver um orgulho pela sua santidade, pela sua justiça, pela sua sabedoria. Ele diz: “Não faça isso. Isso é destrutível.”

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Manifesto sobre a homossexualidade

Por Marcos Granconato
Título original: Manifesto (de um cristão) sobre o homossexualismo
Este manifesto consta de dezenove itens. Nesta primeira parte, por razões de espaço, somente nove foram publicados, ficando os demais reservados para a próxima semana.
Creio que os enunciados aqui expostos refletem, com poucas variações, o pensamento dos cristãos bíblicos, havendo espaço, obviamente, para acréscimos, esclarecimentos e maiores especificações.
Que o Senhor ajude o seu povo a defender corajosamente a verdade nestes dias nebulosos em que os homens chamam o mal de bem e o bem de mal.
1. Como cristão tenho o direito de pensar como um cristão. E se alguém quiser me proibir de pensar como um cristão, com a ajuda de Deus vou desobedecer, mesmo porque a algema do pensamento é a mentira e essa algema foi quebrada para mim quando abracei a verdade do Evangelho (Jo 8.32).
2. Como cristão tenho o direito de falar e escrever como cristão. E se alguém me proibir de falar ou de escrever como cristão, com a ajuda de Deus vou desobedecer, mesmo que todo o ódio dos homens e todas as agruras dos demônios recaiam sobre mim (At 4.19,20; 5.29). Aliás, como crente, creio que minha honra, dignidade e grandeza consistem, em parte, precisamente em ser odiado pelo diabo e por seus servos (Mt 5.10-12; Jo 15.19; 17.14; 1Pe 2.19-21).
3. Como cristão tenho a honra e o dever de ter as Sagradas Letras como a base de tudo o que creio, seja no campo da religião, da filosofia, da ciência ou da ética (2Tm 3.16), sabendo que o abandono dos pressupostos e dos ensinos bíblicos me deixarão à mercê das equivocadas, oscilantes, frágeis, corrompidas, fúteis e passageiras opiniões humanas (1Co 3.19,20; Ef 4.17).
4. Como cristão, vejo o crescimento do que alguns crentes têm chamado acertadamente de “cristofobia”, ou seja, a exacerbação do ódio e do desprezo contra a mensagem cristã e, em especial, contra a visão bíblica acerca da sexualidade (1Pe 4.4). Esse sentimento tem sido deliberadamente estimulado pela mídia, por pessoas do meio artístico e pelos políticos em geral, tornando os melhores cidadãos do Estado inocentes alvos de rancor, preconceito e perseguição (1Jo 3.13).
5. Como cristão, não acredito que a homossexualidade ou qualquer tipo de devassidão sejam doenças ou formas diversas de compulsão. Tampouco creio que esses desvios sejam determinados por fatores físicos e psíquicos ou ainda por qualquer outra causa alheia à vontade da pessoa. Na esteira desse pensamento, creio ser mera fábula a justificativa de que existem mulheres presas dentro de corpos de homens ou vice-versa. Em vez de acolher esses mitos, atribuo todo comportamento imoral à livre e responsável decisão do indivíduo que o adota seguindo voluntariamente seus desejos e paixões pecaminosas (Gn 4.7; Rm 6.13), sendo, por isso, absolutamente responsável diante de Deus por tudo o que faz (Ap 20.12,13).

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Gálatas 2.1-10 - A Unidade Apostólica


Por Marcos Granconato
No capítulo 2, Paulo continua a narrativa, sempre com o propósito de defender sua autoridade apostólica e a liberdade cristã. O capítulo começa com a afirmação que, passados quatorze anos, ele foi novamente a Jerusalém. É difícil detectar o ponto de partida para a contagem desses quatorze anos. Pode-se contá-los tanto a partir de sua primeira visita àquela cidade (1.18-20), como a partir de sua conversão, sendo esta última hipótese a mais provável.
No v. 1 Paulo diz que foi a Jerusalém acompanhado de Barnabé. Sabe-se que ambos por esse tempo eram líderes na igreja de Antioquia (Atos 11.25-26; 13.1) e certamente partiram dali para Jerusalém. Paulo diz que Tito, um gentio convertido também os acompanhou. O apóstolo prossegue dizendo que a visita foi motivada por uma revelação e que, graças a ela, teve a oportunidade de expor o evangelho que pregava aos homens influentes da principal igreja da Judéia (v.2).
Esses detalhes se encaixam perfeitamente na narrativa de Atos. A revelação de que Paulo fala é descrita em Atos 11.27-30 e diz respeito a uma profecia de Ágabo que predisse uma grande fome que assolaria o mundo romano.[1] Em virtude dessa revelação, Paulo foi enviado com Barnabé a Jerusalém a fim de entregar uma oferta levantada em Antioquia para os crentes da Judéia (Veja tb. At 12.25). Conforme narrado em Gálatas, nessa ocasião Paulo não só realizou a entrega da oferta, mas também aproveitou a oportunidade para expor aos líderes da igreja em Jerusalém a mensagem que pregava aos gentios.
A fim de manter em mente o lugar que esses episódios ocupam na cronologia de Atos, é bom lembrar que tudo isso aconteceu antes da Primeira Viagem Missionária a qual redundou na implantação das igrejas da Galácia (At 13-14) e antes do Concílio de Jerusalém (At 15.1-30), ocorrido em 48 d.C.
Paulo realça, ainda no v. 2, que fez a exposição de sua mensagem “aos que pareciam mais influentes”. Ademais, deixa claro que agiu assim para não correr inutilmente. Isso tudo significa que Paulo se preocupava em manter clara a harmonia entre seus ensinos e os dos demais apóstolos.[2] Isso faria com que seus esforços não fossem inúteis, ou seja, evitaria as divisões e até apostasias que as disputas entre mestres invariavelmente trazem sobre a igreja do Senhor e que tornam o trabalho de alguns uma corrida vã.
O v. 2 mostra, portanto, quão importante é que quem trabalha na obra de Cristo nutra a unidade não só com os crentes comuns, mas principalmente com aqueles que desempenham na igreja uma função de alta responsabilidade. Ter a aprovação somente dos que não ocupam lugar de destaque dado por Deus, com desprezo em relação ao parecer dos líderes, dos mestres e dos que são realmente influentes na igreja torna o trabalho uma corrida inútil, destinada ao fracasso, uma vez que só produzirá divisões e discórdias. Trabalha, pois, em vão o obreiro que arranca os aplausos do povo, mas está em desacordo com os homens que Deus constituiu como colunas na sua igreja. Paulo sabia disso e, ainda que não estivesse sob a autoridade dos apóstolos de Jerusalém, buscou cuidadosamente e para o bem da Causa estar em harmonia com eles.
Nos vv. 3-5, Paulo mostra que os ataques que estava enfrentando por parte dos falsos mestres da Galácia não lhe eram novidade. Ele narra que em sua segunda visita a Jerusalém, Tito[3], apesar de ser grego, não foi obrigado a circuncidar-se (3). Esse fato tinha especial importância para o enfraquecimento das acusações dos mestres judaizantes, pois dava provas de que os apóstolos de Jerusalém, ao contrário do que aqueles falsos mestres diziam, não exigiam a circuncisão de convertidos gentios[4]. Paulo, assim, comprova ainda mais a harmonia entre seu evangelho e o dos apóstolos da Judéia. Isso corrobora a tese de que é um verdadeiro apóstolo e destrói a acusação de que pregava um cristianismo modificado por seus caprichos.
A questão da necessidade da circuncisão de Tito, conforme Paulo narra, foi levantada na ocasião por falsos irmãos (4). Aqui Paulo diz abertamente que quem defende a justificação pela prática da Lei não é crente. É claro que isso atingia diretamente os mestres judaizantes que estavam ensinando nas igrejas da Galácia. O alvo claro de Paulo em toda essa sessão é desmascarar esses homens.
O v. 4 mostra uma das estratégias de Satanás no uso de seus ministros para destruir a obra de Cristo. Em primeiro lugar eles se infiltram em nosso meio. Assim, cada crente deve estar alerta para o fato de que nem todos os que estão na igreja são irmãos de verdade.  É comum incrédulos se fingirem de crentes para cumprirem os desígnios de Satanás no meio do povo de Deus. Tais pessoas são, portanto, muito perigosas (2Co 11.26; Fp 3.2-3) e o crente precisa de discernimento para detectá-las.
Uma das formas pelas quais podemos detectar essas pessoas encontra-se ainda no v. 4. Paulo deixa claro que os falsos irmãos se introduziram na igreja para “espionar” a liberdade dos crentes. Espionar é atividade própria de estrangeiros inimigos. O verbo sugere a idéia de espiar um território. Assim o espião é sempre um inimigo disfarçado que procura os pontos fracos do seu alvo a fim de cooperar com sua destruição. Em Jerusalém, os “espiões” procuravam encontrar dentro da igreja fraquezas na compreensão da liberdade conquistada por Cristo para os crentes. Fazendo pressões sobre esses pontos de maior fragilidade eles tinham como alvo destruir a liberdade cristã e tornar os crentes escravos da Lei.[5]
Toda essa estratégia usada pelos maus nos ajuda a detectar os inimigos de Cristo infiltrados entre os irmãos. Sempre que alguém no meio da igreja milita contra algo que Cristo conquistou para nós na cruz, certamente tal pessoa é um servo de Satanás a serviço de seu senhor no meio do povo de Deus. Exemplos do que Cristo conquistou para nós no Calvário, além da liberdade, são a alegria (Jo 7.38), a comunhão pacífica (Ef 2.14-16), o acesso a Deus (Hb 10.19-20) e o poder para uma vida de consagração (Rm 6.10-11; 2Co 5.15). Sempre que alguém, dentro da igreja, luta contra essas coisas, tal pessoa deve ser olhada com suspeita como um falso irmão infiltrado em nosso meio para destruir a obra do Mestre e, assim, cumprir os planos de Satanás.
O v. 5 deixa implícito que os falsos irmãos, além de tentar destruir o que Cristo conquistou para o seu povo também tentam se impor sobre o rebanho. Paulo dá a entender que os legalistas de Jerusalém queriam que ele e todos os crentes se sujeitassem às suas idéias (o paralelo com os legalistas que estavam na Galácia é óbvio, cf. 4.17; 6.12-13). É, de fato, traço típico dos falsos irmãos tentar ocupar posições de influência, de onde seus ataques podem ser feitos com maior eficácia (3Jo 9-10). O Apóstolo, porém, em nenhum momento se sujeitou a eles. Com isso ele buscava preservar a verdade do Evangelho. A verdade que o Apóstolo tem em mente aqui é a consubstanciada em 3.11. 
Demonstrar que sua mensagem não lhe fora entregue por homem algum, mas sim pelo próprio Cristo, era fundamental para Paulo na defesa de seu apostolado (1.11-12). Por isso insiste em dizer que em sua segunda visita a Jerusalém, os apóstolos que ali estavam nada lhe acrescentaram (6). Com a expressão “quanto aos que pareciam influentes”, Paulo dá a entender que tem em mente outros líderes, pouco conhecidos por ele, além dos apóstolos. Ao mencionar tais homens e sua aparente autoridade, Paulo observa que a grandeza deles naquela igreja não o impressionava, pois, conforme lembra, “Deus não julga pela aparência”.
De fato, é comum na igreja vermos pessoas se destacando, tornando-se conhecidas e influentes, obtendo um lugar de proeminência no meio da irmandade, dando a todos a impressão de que são “grandes” e cheios de autoridade entre os crentes. Alguém assim pode impressionar os homens, mas não passar de uma figura desprezível aos olhos de Deus, alguém que até mesmo muito o aborrece com seus ares de orgulhoso, com sua preocupação em passar uma falsa imagem de santidade e zelo (Mt 6.16; 2Tm 3.1-5), e com sua incapacidade de aceitar qualquer autoridade sobre si. Paulo sabia que muitas vezes as aparências não correspondem aos fatos. Por isso, não se deixava levar pelo aspecto externo das coisas, sabendo que o justo Juiz julga de acordo com critérios que vão além das nossas possibilidades (1Sm 16.6-7; Is 11.1-4), o que também deveria nos conduzir a um cuidado maior com o que realmente somos e com o modo como tratamos as pessoas (Jo 7.24; Tg 2.1-10).
Paulo prossegue dizendo que a liderança da igreja em Jerusalém reconheceu seu apostolado como estando no mesmo nível do apostolado de Pedro, o apóstolo de maior destaque entre os Doze (7). A diferença entre ambos era apenas no tocante ao alvo de cada ministério. O principal alvo de Paulo era os gentios; o principal alvo de Pedro era os judeus. Isso, evidentemente, não significava que Paulo não deveria pregar aos judeus (At 9.15), ou que Pedro não deveria evangelizar gentios. Na verdade, os judeus eram os primeiros que Paulo tentava conduzir à fé nas cidades por onde passava (At 13.45-48; 14.1; 18.5-6; 28.16-28), e Pedro foi personagem fundamental no “processo de inclusão” dos gentios na igreja (At 10; 15.7). Aqui, no entanto, é-nos ensinado acerca da ênfase do trabalho de cada um (Rm 11.13; 1Tm 2.7).
A despeito de atuarem em esferas diferentes, a igualdade entre o apostolado de Paulo e o de Pedro estava no fato de que Deus operara da mesma forma por meio de ambos (8). Não havia, pois, razão alguma para que Paulo fosse considerado um falso apóstolo ou um apóstolo de categoria inferior como pretendiam os mestres legalistas. Paulo ensina no v.8 que nem mesmo o próprio Deus fazia essa distinção.
A operação de Deus por meio de Pedro e Paulo como apóstolos, consistiu em manifestar seu Filho a eles depois de ressurreto (Jo 20.19-20; 1Co 9.1), incumbi-los pessoalmente da missão de proclamar o Evangelho (Jo 20.21; At 26.15-18; 1Co 9.17), dar-lhes singular intrepidez e sabedoria ao pregar (Mt 10.17-20; At 4.13; 2Co 10.3-5; 11.23-29), abrir o coração de incrédulos para a sua mensagem (At 2.37-41; 16.14) revelar-lhes verdades doutrinárias até então desconhecidas (2Co 12.1,7; Ef 3.2-6; 2Pe 3.1-2), e realizar milagres jamais vistos como prova de que sua mensagem vinha de Deus (2Co 12.12; Hb 2.3-4).
Paulo conclui o relato sobre sua segunda visita a Jerusalém falando que os líderes da igreja ali reconheceram a legitimidade de seu ministério e estenderam a mão a ele e a Barnabé, um sinal de harmonia e amizade, estando em acordo quanto às diferentes esferas de atuação missionária (9). É bom ressaltar que os líderes aqui, Tiago, Pedro e João, são chamados de colunas, o que lembra o dever dos que estão à frente de sustentar a igreja com força e firmeza inabalável (2Tm 1.7).
O v. 10 revela que os líderes de Jerusalém somente pediram que Paulo e Barnabé se lembrassem dos pobres. Isso fazia sentido, considerando que a visita tinha sido motivada pela profecia de Atos 11.27-30. Tal pedido, porém, não refletia qualquer autoridade dos apóstolos de Jerusalém sobre Paulo. Mesmo assim, ele se esforçou para atendê-lo. De fato, o cuidado com os carentes foi uma marca presente ao longo de todo o ministério de Paulo (Rm 15.25-26; 1Co 16.1-4).


[1] A fome mencionada em Atos aconteceu, provavelmente, entre 46 e 48 d.C., mas não abrangeu o Império inteiro, sendo a Judéia o seu cenário. Contudo, aqueles dias foram marcados por fomes freqüentes que sobrevieram a diferentes regiões de todo o Império.
[2] Isso era especialmente importante porque, como se sabe, os falsos mestres da Galácia estavam dizendo que o ensino de Paulo era contrário à doutrina dos apóstolos de Jerusalém.
[3] Tito foi, posteriormente, delegado de Paulo com a missão de administrar a crise em Corinto (2Co2.12-13; 7.5-7). Ele também coordenou as igrejas de Creta (Tt 1.5).
[4] Como se sabe, os judaizantes entendiam que a circuncisão era fundamental para que o homem fosse justificado. Veja 5.2-4, 6; 6.12-13, 15.
[5] A atividade e ensino dos judaizantes de Jerusalém num tempo posterior mas muito próximo da composição da Epístola aos Gálatas podem ser vistos em Atos 15.1-2,5.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Qual tem maior valor, o comentarista ou o autor bíblico?

Por T. Zambelli

Há pouco tempo um bom amigo e irmão em Cristo, mestrando em Dallas Theological Seminary, escreveu
um artigo cuja interpretação é no mínimo bastante divergente do que grande parte dos crentes conhecem.

Eu republiquei o artigo em Pense Bíblia: "Papa, Pedro e a Pedra." Seu artigo também está em outros sites, como no que Marcelo Berti, autor do artigo, mantém: Teologando. Mas foi no site NAPEC que ele encontrou o que quero compartilhar neste post.

Fazendo um extremo resumo do artigo de Marcelo, ele apresenta a passagem de Mateus 16.18 (E eu lhe digo que você é Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não poderão vencê-la - NVI) e conclui que Pedro é a pedra que Jesus faz referência. Historicamente o protestantismo reagiu à conclusão católica romana e apontou para Cristo ou a declaração de Pedro como a pedra a que Jesus se refere. Marcelo diz: “Eu realmente acredito que a interpretação Católica é a interpretação correta do texto, embora entenda que a implicação Protestante seja correta." (Grifos meus.)

Espero eu já ter causado curiosidade suficiente para que você, leitor, possa tomar um tempo e conhecer o artigo. Repito o link aqui: http://goo.gl/mxqsF

De fato, meu ponto não é atacar nem defender a interpretação do Marcelo, mas compartilhar algo que tenho empiricamente notado e que reconheço correr o risco. Muitos crentes, quando diante de interpretações que desafiam a lógica de seus sistemas, bem como suas compreensões históricas, geralmente reagem equivocadamente à nova informação. Geralmente eles não proporcionam o devido tempo para processar os novos dados e examinar à luz das Escrituras se aquilo procede ao lado da verdade ou não. Não são como os de Bereia. As razões para agirem assim são as mais diversas, mas todas na mesma raíz, o pecado.

Marcelo encontrou alguém com as características de um estrategista sofista: superficial, relativista, cheio de perguntas de tom acusativo e sarcástico, nunca bem fundamentado. Um sofista não procura responder às questões, mas apontar à falta de consistência do argumento a quem ele advoga contra, mesmo que tenha que usurpar da verdade. Marcelo foi acusado de herege mesmo tendo, com tanta clareza, usado a Bíblia, a história e outros pensadores cristãos para apresentar seu ponto de vista. (Para entender exatamente o que digo, veja os comentários ao final do artigo do Marcelo em NAPEC.)

À semelhança desta história, conto outra. Um amigo pastor certa vez me perguntou sobre meu ponto de vista a respeito de divórcio e recasamento. Tenho uma convicção minoritária sobre este assunto. Respondi a ele o que eu penso biblicamente, no entanto, ele não achava aquilo possível. Semanas depois ele me encontrou e muito empolgado disse: "mudei de ideia sobre divórcio e recasamento e agora sou do seu time" - eu nunca havia pensado que éramos de times adversário. Logo, perguntei: "e como isso aconteceu?" Ele foi exposto aos mesmos argumentos que eu havia dito, no entanto, por uma outra pessoa, agora John Piper.


Como no artigo do Marcelo, a demonstração bíblica de que Pedro era a pedra não parecia ser suficiente. O que então é suficiente? Em minhas humildes e limitadas observações, parece-me que o crente brasileiro tem dado mais ouvido aos pregadores do que o texto que deve ser pregado. Eles têm dado mais credibilidade aos comentaristas bíblicos do que os escritores bíblicos (supervisionado pelo Único Autor). O peso de alguns nomes de estudiosos bíblicos tem sido mais valioso que a própria Palavra de Deus.

Para não ser entendido equivocadamente, deixo explícito: é importante e muito valioso observarmos e aprendermos com nossos piedosos e inteligentíssimos irmãos o que eles perceberam e aprenderam do texto bíblico. No entanto, isso não deve estar em primeiro lugar na busca pela verdade. Não devemos cegamente aceitar o cometário de um pastor, reverendo, missionário ou qualquer outro com título ou sem título sem averiguação da verdade com a Palavra de Deus. A verdade somente é verdade se for coerente com a Palavra de Deus, porque ela é a própria verdade (João 17).

Na prática é isso o que acontece: se Russell Shedd disse, então esta é a verdade; se John Piper disse, então esta é a verdade; se meu pastor disse, então esta é a verdade. Por favor, nunca desconsidere o que pessoas piedosas ensinam, mas nunca as considere infalíveis. Ouça e leia o que outros piedosos homens entenderam das Escrituras, mesmo que não seja o mesmo ponto de vista daqueles que você reconhece pelo zelo da Palavra de Deus.

Você já leu o artigo de Marcelo, Papa, Pedro e a Pedra? Fará diferença para você, se eu lhe disser que Allen Ross, Marvin Vincent e Herman Nicolas concordam com ele? E seu acrescentar Weber e Bloomberg? E seu eu lhe disser que tanto John Piper quanto John MacArthur interpretam o texto de Mt 16.18 sendo Pedro a pedra assim como Marcelo o faz?

Para mim, saber o ponto de vista de pensadores cristãos como estes é muito importante. Muitas vezes, quando eu estudo, acontece de minha interpretação ser diferente de alguns dos professores que eu mais prezo. Quando isso acontece, reavalio tudo o que eu pensei e procuro mais conteúdo sobre o tema. Neste processo eu oro a Deus para que orgulho não seja um problema para eu não aceitar a verdade de Deus.

sábado, 13 de abril de 2013

O Antigo Testamento e a Bíblia

Por Luiz Sayão

A Bíblia é a revelação escrita de Deus aos homens. Ela é clara em afirmar sua origem divina. As Escrituras
são divinamente inspiradas e proveitosas para nos ensinar a verdade de Deus (2Tm 3.16). Seu próprio testemunho é uma obra plenamente confiável, pois ela é a Palavra de Deus. São 66 livros, 39 no Antigo Testamento, anteriores ao nascimento de Cristo, e 27 no Novo Testamento, escritos depois de Cristo. O Novo Testamento faz sentido quando lemos e entendemos o Antigo Testamento. Há nas Escrituras uma revelação progressista, culminando em Cristo, no Novo Testamento. Resumir o propósito das Escrituras não é fácil, mas podemos dizer que a essência da mensagem bíblica é a seguinte:

1. Explicar a origem do homem

2. Mostrar a origem do mal e do pecado no mundo

3. Ensinar que Deus deseja a salvação dos homens

4. Afirmar que a salvação de Deus está na pessoa de Jesus

5. Afirmar que há esperança e vida eterna para todo aquele que se volta para Deus, por meio de Cristo Jesus.

Ao contrário do que alguns imaginam, os autores da Bíblia não foram usados como uma máquina de escrever quando redigiram os textos sagrados. Não foi algo parecido com uma psicografia!No entanto, mesmo conscientes e mostrando seu estilo peculiar, foram usados por Deus para revelar a vontade divina para nos e não suas próprias opiniões. A prova de que eles não escreveram suas opiniões particulares é que muitos dos autores bíblicos nem compreendiam a plena profundidade daquilo que estavam redigindo, como foi o caso das profecias (2Pe 1.19-21). O Espírito de Deus supervisionou a sua própria Palavra, ainda que tenha usado instrumentos humanos, conforme lemos nas próprias Escrituras Sagradas

Muitas pessoas rejeitam o valor da Bíblia pelo flato de algumas de suas histórias serem repletas de milagres extraordinários. Isso é especialmente destacado no caso do Antigo Testamento. Algumas pessoas até sinceras chegam a perguntar: “Como pode Jonas sobreviver no ventre de uma baleia? Seria verdade que o mar Vermelho abriu-se? Como pode alguém ressuscitar? É possível fazer descer fogo dos céus?”. Muitos pensam que é impossível para um cidadão culto e bem informado acreditar em histórias tão fantásticas. Talvez isso não seja tão difícil assim! É interessante observar, por exemplo, que a maioria das pessoas acredita que Deus criou o mundo e o universo. No entanto, é muito mais difícil criar tudo o que existe a partir do nada do que fazer o mar Vermelho abrir-se. Como pode alguém acreditar que Deus criou todas as coisas e duvidar que ele tem poder para interferir no mundo criado? Se cremos que Deus é Todo-Poderoso não devemos achar tão difícil que ele tenha feito milagres extraordinários como vemos nas histórias de Moisés, Elias e Jonas.


sábado, 6 de abril de 2013

Como assim, não toque no ungido do Senhor?

Por Augustus Nicodemus Lopes

Há várias passagens na Bíblia onde aparecem expressões iguais ou semelhantes a estas do título desta postagem:

A ninguém permitiu que os oprimisse; antes, por amor deles, repreendeu a reis, dizendo: Não toqueis nos meus ungidos, nem maltrateis os meus profetas (1Cr 16:21-22; cf. Sl 105:15).

Todavia, a passagem mais conhecida é aquela em que Davi, sendo pressionado pelos seus homens para aproveitar a oportunidade de matar Saul na caverna, respondeu: "O Senhor me guarde de que eu faça tal coisa ao meu senhor, isto é, que eu estenda a mão contra ele [Saul], pois é o ungido do Senhor" (1Sm 24:6).

Noutra ocasião, Davi impediu com o mesmo argumento que Abisai, seu homem de confiança, matasse Saul, que dormia tranquilamente ao relento: "Não o mates, pois quem haverá que estenda a mão contra o ungido do Senhor e fique inocente?" (1Sm 26:9).
Davi de tal forma respeitava Saul, como ungido do Senhor, que não perdoou o homem que o matou: “Como não temeste estender a mão para matares o ungido do Senhor?” (2Sm 1:14).

Esta relutância de Davi em matar Saul por ser ele o ungido do Senhor tem sido interpretado por muitos evangélicos como um princípio bíblico referente aos pastores e líderes a ser observado em nossos dias, nas igrejas cristãs. Para eles, uma vez que os pastores, bispos e apóstolos são os ungidos do Senhor, não se pode levantar a mão contra eles, isto é, não se pode acusa-los, contraditá-los, questioná-los, criticá-los e muito menos mover-se qualquer ação contrária a eles. A unção do Senhor funcionaria como uma espécie de proteção e imunidade dada por Deus aos seus ungidos. Ir contra eles seria ir contra o próprio Deus.

Mas, será que é isto mesmo que a Bíblia ensina?

A expressão “ungido do Senhor” usada na Bíblia em referência aos reis de Israel se deve ao fato de que os mesmos eram oficialmente escolhidos e designados por Deus para ocupar o cargo mediante a unção feita por um juiz ou profeta. Na ocasião, era derramado óleo sobre sua cabeça para separá-lo para o cargo. Foi o que Samuel fez com Saul (1Sam 10:1) e depois com Davi (1Sam 16:13).

quarta-feira, 27 de março de 2013

Características básicas do significa de casamento

Jay Adams, em seu livro, Marriage, Divorce and Remarriage in the Bible (Zondervan), começa com a
importância de saber, de fato, o que é casamento. Ele fala de algumas características básicas, porém essenciais, que todo crente deve saber:

  1. Casamento não é uma instituição humana. Foi ideia de Deus (Gn 2) e, por isso, mesmo o estado não tem a competência de dizer quando uma pessoa está ou não está casada. Ao estado cabe guardar a instituição divina.
  2. Casamento é uma instituição fundamental. É a menor unidade da sociedade. Quando alguém ataca o casamento, ataca necessária e consequentemente, o criador dessa instituição, Deus.
  3. Casamento não foi criado para o propósito da procriação, como diz a teologia católica romana e de alguns círculos protestantes. A procriação é somente uma característica do casamento. Note que o ser humano seria muito mais prolífico fora do casamento.
  4. Casamento não é a mesma coisa que relação sexual. Casamento é uma união que implica em haver relação sexual como uma obrigação central e de prazer. Se casamento e sexo fossem um, então a Bíblia não precisava apresentar a palavra fornicação, por exemplo. Alguns, equivocadamente, até dizem que adultério dissolve um casamento porque um novo casamento é feito. Também, mais uma vez erradamente, alguns acham que o casamento se inicia na lua de mel. Se isso fosse verdade, muitos ministros de casamento (padres, pastores, sacerdotes, etc) estariam mentindo ao dizer: "eu agora os pronuncio marido e mulher." De fato, o relacionamento sexual santo é possível na lua de mel porque eles já estão casados (Hb 13.4).

"Um casamento é consumado quando um homem e uma mulher trocam votos diante de Deus e entre si, então eles entram numa relação de aliança."

sábado, 23 de março de 2013

A Convenção Batista Brasileira é fundamentalista?

Por Mark Ellis

Tenho conversado com vários alunos que estão confusos sobre as várias linhas da teologia, alguns dos quais acham que as únicas alternativas são a teologia da libertação e a do fundamentalismo. Eles não têm a menor ideia da diferença entre fundamentalismo e evangelicalismo. Eles parecem pensar que qualquer um que mantém a fé apostólica, protestante e evangélica, é um "fundamentalista". Aqui está um texto que pode ajudar a esclarecer a confusão.

O fundamentalismo era de fato sobre teologia, mas o que faz alguém um "fundamentalista" não é a sua teologia, mas a maneira como se defende a teologia. George Marsden, professor não evangélico de História da Igreja na Universidade de Yale, identificou duas marcas do fundamentalismo: 1) militância - hostilidade manifesta contra aqueles que não compartilham de suas crenças, e 2) separação - a falta de vontade de trabalhar com aqueles que não compartilham de suas perspectivas. Abaixo um site de fundamentalistas batistas que corajosamente declaram que este é o seu distintivo primário.



São essas duas características, militância e separação, que nos permite falar de "fundamentalistas muçulmanos" e, até mesmo, "fundamentalistas liberais". O pequeno relacionamento que eles têm com o cristianismo converge em seu ódio mútuo e de rejeição pelos cristãos. Eles são agressivos na sua vontade de promover as suas ideias, e querem excluir de suas esferas de influência todos que não concordam com eles. De muitas maneiras, a palavra "fundamentalista" tornou-se um palavrão que os apóstatas usam contra a verdadeira fé cristã, contra os próprios evangélicos, como uma forma de tentar disfarçar sua apostasia.

Ao contrário do que dizem, a Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira é evangélica e não fundamentalista como descrito supra. Ela é uma excelente e admirável exposição de nossa fé, escrita com impressionante erudição e discrição. Onde os batistas brasileiros estão de acordo e, de fato concordam com a fé histórica do Cristianismo, é claríssima como a luz do sol. E onde há diferenças, ambas as partes podem lê-la e descordar. É este espírito de concordar com os claros ensinamentos da Palavra de Deus e a possibilidade de concordar ou discordar sobre assuntos secundários que torna o movimento batista tão bonito. Assim, a Declaração Doutrinária da CBB não é um instrumento de divisão e militância, mas a expressão alegre da fé que reúne os evangélicos batistas.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Não quero ter filhos. O que há de errado?

Por Rick Thomas

Pergunta: “Ei, Rick! Pode me ajudar com uma coisa? Nunca tive o desejo de ter filhos e me pergunto se isso é errado. É? O que você diria para uma pessoa que não quer ter filhos?”

Esta é uma pergunta intrigante. Em primeiro lugar, gostaria de começar com o que a Bíblia diz sobre ter filhos ou não. Acho que você já sabe que não há nenhum texto que diz: “Tu deves ter filhos e não há outra maneira além dessa”.

Devemos sempre levar nossas perguntas para a Palavra de Deus com integridade, humildade e desejo de nos alinhar com o que Deus nos ensina. A partir de uma perspectiva teológica, não é absolutamente obrigatório que todas as mulheres tenham filhos.

É claro, no aconselhamento, a pergunta original raramente é a pergunta certa. Geralmente existem questões nas entrelinhas que devem ser exploradas, a fim de se responder a questão inicial.

Eu poderia dizer: “Não, você não tem de ter filhos” e deixar por isso mesmo, e me mover para o próximo assunto. No entanto, se eu tivesse o contexto e o relacionamento para ir mais fundo, a coisa certa a fazer seria explorar o que está por trás de sua pergunta.

Embora eu não te conheça, eu posso explorar um pouco os possíveis problemas subjacentes que levaram a sua falta de desejo de ter filhos. Não estou dizendo que você deve ou não, estou apenas explorando o assunto. Como todos os nossos desejos estão enraizados em nossos corações, não em nossa prática, você deve checar o seu coração em primeiro lugar.

Deixe-me ilustrar. O meio-irmão do Salvador nos ensina como nossa raiva (comportamento) está enraizada em nossos deleites (Tiago 4:1), inveja ou cobiça (Tiago 4:2). Se você quer entender porque uma pessoa respondeu com raiva, você precisa discernir e compreender seus desejos, seu coração.

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segunda-feira, 18 de março de 2013

O Papa, Pedro e a Pedra

Por Marcelo Berti

E eu lhe digo que você é Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não poderão vencê-la - Mateus 16:18





Com a recente mudança na direção da igreja católica, novamente as questões relacionadas a interpretação de Mateus 16.18 veem à tona: Quem ou o que é a pedra na qual Jesus pretende construir sua igreja? Seria uma referência ao apóstolo Pedro ou a Jesus Cristo? Se Pedro é a Pedra é ele o Papa? Afinal de contas quem é a pedra mencionada nesse texto? E o que essa expressão significa?

A interpretação desse texto tem sido alvo de avaliações e reavaliações durante a história da igreja, e duas categorias principais insurgem nessa busca pela correta compreensão do texto. A primeira interpretação é conhecida por meio da Igreja Católica, que afirma que Cristo afirma com esse texto que Pedro é a rocha sobre a qual Jesus iria construir sua igreja. Assim esse texto afirmaria a base para o Papado Petrino e como parte da argumentação para sua sucessão papal. A segunda interpretação é conhecida como a interpretação Protestante, que rejeita a ideia de um Papado de Pedro como o cabeça da igreja e portanto a sucessão papal decorrente dela. Duas diferentes opiniões protestantes são conhecidas: (1) A confissão de Pedro (Tú és o Cristo o Filho do Deus vivo) é a pedra, ou então, (2) O próprio Cristo é a pedra sobre a qual a igreja é edificada.

sexta-feira, 15 de março de 2013

A diferença que uma letra faz

Por Marcelo Berti

“Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens de boa vontade” Lucas 2:14 (ARC)
Acho que a maioria de nós já ouvir esse verso na época do Natal: pode ter sido num cartão, numa cantata ou até mesmo em algum comercial de televisão. A verdade é que é um texto bem conhecido até mesmo por quem nunca sequer abriu a Bíblia em sua vida.

Entretanto, outras versões portuguesas lêem o mesmo verso de modo diference, como é o caso da NVI: “Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens aos quais ele concede o seu favor” (NVI). Observe que a diferença não é grande, mas a ARC afirma que a paz anunciada pelos anjos é direcionadas aos homens de boa vontade, ao passo que a NVI afirma que a mesma paz é direcionada apenas aos homens a quem Deus estende seu favor.

A diferença entre a ARC e a NVI reside em uma pequena letra no texto grego equivalente à letra “s” em português. No texto grego usado pela ARC (conhecido como Texto Recebido) traz a palavra grega eudokia, enquanto o texto usado pela NVI (conhecido como Texto Crítico) traz eudokias.

O Texto Recebido traz o substantivo no nominativo e por isso traz a força de um substantivo em aposição à sentença “entre os homens“. Ou seja, a paz na terra anunciada pelos anjos é oferecida aos homens, ou seja, àqueles que tem boa vontade.

No Texto Crítico o mesmo substantivo no genitivo e por isso está diretamente ligado ao substantivo homem e oferece a característica do substantivo que modifica. Ou seja, a paz na terra é agora oferecida aos homens que recebem favor de Deus.

A diferença entre as duas palavras é pequena, mas faz bastante diferença. Na primeira leitura a paz é oferecida de modo genérico à humanidade. Na segunda, a paz é restrita e oferecida objetivamente ao homens a quem Deus concede seu favor.
UMA LETRA FAZ MUITA DIFERENÇA. É a diferença entre um copista desatento (que acrescentou ou esqueceu uma pequena letra) e um copista reformado (que incluiu o s).
Nenhuma doutrina essencial é afetada por essa pequena mudança, mas a leitura da ARC poderia reforçar o mandato missionário universal, enquanto a NVI poderia reforçar a evidência bíblica da ação seletiva de Deus.

A diferença é pequena, mas exige uma definição. Qual versão você acredita que Lucas, o autor desse texto usou, nominativo ou genitivo?


segunda-feira, 11 de março de 2013

Cinco dicas para pregar em passagens complicadas

Por Don Carson

  1. Leia muitos comentários sobre a passagem específica. Passagens complexas admitem diferentes formas de alcançar uma possível ou correta conclusão.
  2. Esteja preparado para oferecer uma conclusão com probabilidades. Por exemplo: "talvez a melhor solução para esta questão seja..." Demonstre com segurança que o assunto admite diferentes soluções.
  3. Não invista tempo demais na solução de passagens complexas. Talvez você possa dizer que está aberto a falar mais sobre este tema em outra ocasião.
  4. Não use expressões que tenham qualquer conotação de superioridade. Por exemplo: "tal catedrático, doutor, comentarista ou escolástico pensa assim, mas eu cheguei a conclusão que..."
  5. A única vez que você deve devotar tempo para explicação de uma complexidade bíblica é quando ela está intrinsecamente relacionada com a teologia apresentada ou ela completa a ideia para a integridade das Escrituras.


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Salmo 106 - Quanto o Povo de Deus já Fez

Por Thomas Tronco

O grande pregador britânico John Wesley (1703-1791) e seu irmão Charles (1707-1788) tiveram uma mãe cuja paciência era notável. Certa vez, seu marido a elogiou: “Eu admiro sua paciência! Por vinte vezes você falou a mesma coisa para as crianças”. Ela respondeu: “Se eu tivesse falado apenas dezenove vezes, teria perdido todo o meu trabalho”. Essa pequena história demonstra que essa mãe, Susanna Wesley, tinha um objetivo a cumprir e isso valia ser paciente e lançar sobre si mesma o custo do desgosto de ter sua palavra desobedecida quase tantas vezes quanto pronunciada. Essa disposição se chama “misericórdia” e, longe de promover o castigo tão rápido ele mereça ser aplicado, visa a um objetivo final que justifica a paciência e que administra a justiça e o amor no tratamento do rebelde.

O Salmo 106 foi escrito sob a óptica do tratamento misericordioso de Deus a um povo que, “repetidas vezes” se rebelou contra ele, mesmo quando suas bênçãos estavam em pleno curso de ação. Assim como os salmos 96 e 105, este reproduz um trecho do cântico celebrado na introdução da arca em Jerusalém (vv.47,48 cf. 1Cr 16.35,36). Contudo, o pequeno tamanho do texto coincidente e a evidência interna do salmo de uma ocasião de exílio (vv.46,47) não excluem a possibilidade de ter sido composto alguns séculos depois – até mesmo durante ou depois do cativeiro babilônico (notar a semelhança entre o v.1 e Jr 33.11). Independente disso, o enfoque do salmista, em termos históricos, recai sobre as ações dos israelitas contra Deus durante o período entre o êxodo e a conquista de Canaã – período semelhante ao vislumbrado no Salmo 105. Porém, ao focalizar a ação rebelde dos israelitas, há a evidenciação e exaltação da misericórdia com que Deus os tratou em toda essa jornada. Assim, o salmista fornece quatro visões sobre a misericórdia de Deus no tratamento dos seus servos.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Dez Princípios para a Educação Cristã

Por Marcelo Berti

1. A Metafísica para a Educação Cristã deve ser deve ser centrada em Deus

Esta questão esta relacionada com questões que envolvem a realidade maioral, a natureza da realidade em que vivemos. O pressuposto desta afirmação se baseia na realidade soberana e suprema existente na essência do próprio Deus eterno (Gn 1.1; Jo 1.1).

Quando analisamos a palavra de Deus, não a vemos tentando comprovar a existência de Deus de maneira científica ou experimental, mas ao contrário ela prova a existência de Deus de acordo com os eventos ocorridos na história e a sua própria revelação, tanto a geral como a específica.

Numa filosofia que quer abordar uma educação que é realmente Cristã, é indubitavelmente necessário ter como base à existência de Deus. Sem a existência do mesmo não haveria uma “Educação Cristã”.

O educador cristão não deve hesitar na investigação aberta da realidade da sua fé, desde que usa a metodologia própria para isto.

2. A Epistemologia para a Educação Cristã deve ser centrada na Revelação

Epistemologia relaciona-se com o motivo ou essência do conhecimento e os de como saber o que é verdade. Tem haver com a natureza e até onde o conhecimento pode chegar ou ser alcançado.

A verdade não é produzida pelo homem, não é achada numa viagem, ou comprada por qualquer quantia de dinheiro. Os meios para chegar ao conhecimento da verdade estão situados somente na revelação de Deus, pois ele é o Deus cujas palavras são verdade (2 Sm 7:28). A revelação natural trata das maravilhas físicas do universo criado e que através da sua magnitude e intrínseca beleza, demonstra o grande criador divino (Sl 19.1).


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