quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O ‘Outro Deus’ do Teísmo Aberto

Por Thomas Tronco

O recente tsunami no Japão mais uma vez levantou a questão: onde estava Deus na hora da tragédia? Essa pergunta ecoa todas as vezes em que tragédias ocorrem. Se estoura uma guerra, “onde estava Deus que não a impediu?”. Se barrancos desabam sobre as casas, “por que Deus permitiu tal coisa?”. Se um terremoto devasta uma região ou até um país, “como pode um Deus bom existir se coisas ruins acontecem?”.

A questão é antiga. O profeta Habacuque se viu diante desse dilema. Os israelitas estavam sob o prenunciado juízo de Deus. O Senhor, que durante séculos avisou, repreendeu e aguardou com paciência pelo arrependimento do povo, finalmente enviou a eles a devida consequência do seu pecado. Entretanto, o fez pelas mãos de um povo cruel que agiu com injustiça. Assim eles são descritos: “Pois eis que suscito os caldeus, nação amarga e impetuosa [...] Eles são pavorosos e terríveis, e criam eles mesmos o seu direito e a sua dignidade” (Hc 1.6,7). Se essa descrição não deixa claro que o “direito” e a “dignidade” que os babilônicos criavam eram bem “questionáveis”, o v.9 arremata a questão afirmando: “Eles todos vêm para fazer violência”. Diante disso, a pergunta de Habacuque a Deus soa de maneira muito natural aos olhos humanos: “Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal e a opressão não podes contemplar; por que, pois, toleras os que procedem perfidamente e te calas quando o perverso devora aquele que é mais justo do que ele?” (Hc 1.13).

O medo de Habacuque, ao que parece, era notar que Deus não era tão amoroso ou justo como ele sabia ser. Era um “nó” que não se desatava na mente do profeta. Era a tensão entre aquilo que ele cria e aquilo que ele via. E ele não foi o único a questionar o Senhor diante do sofrimento. Jó, muito tempo antes, ao sofrer com os ataques de satanás que lhe custaram os bens, os filhos e, finalmente, a saúde, também se viu diante do mesmo dilema.. Discordando da ideia de que sua calamidade seria uma punição, diz Jó a Deus: “Tens tu olhos de carne? Acaso, vês tu como vê o homem? São os teus dias como os dias do mortal? Ou são os teus anos como os anos de um homem, para te informares da minha iniquidade e averiguares o meu pecado? Bem sabes tu que eu não sou culpado; todavia, ninguém há que me livre da tua mão” (Jó 10.4-7). O receio de Jó é sofrer um tratamento da parte de Deus sob critérios imperfeitos comuns nos homens e não em um Deus sábio e justo.

Essa “aparente” injustiça e falta de amor sempre exigiu uma resposta e os servos do Senhor sempre se esmeraram em oferecê-la de modo a preservar a perfeição, a santidade e a bondade do Senhor como descritas nas Escrituras.. Esse tipo de defesa recebe o nome de teodiceia.. Muitos foram os homens que se renderam a isso. Como, com o passar do tempo, as tragédias não deixaram de existir, ainda hoje há pessoas que tratam a questão e defendem que, mesmo diante das maiores catástrofes, o Senhor eterno é Deus santo e bom. Contudo, nos últimos tempos, alguns autonomeados “advogados” do Senhor criaram um tipo de defesa “às avessas”. Em lugar de afirmarem, como os defensores do passado, que, ainda que Deus tome decisões duras, elas fazem parte de um plano bom daquele que é perfeito e soberano, tais rábulas dizem que Deus não é culpado pelas tragédias simplesmente porque “nada teve a ver com elas”.. Dizem que ele não as orquestrou e que nem sequer sabia que aconteceriam.. Defendem que, caso soubesse, certamente as evitaria. Para eles, somente assim agiria um Deus que é bom e amoroso.. Esse tipo de argumentação recebeu o nome, no meio teológico e eclesiástico, de “teísmo aberto”.


Apesar de o teísmo aberto ter a intenção de defender a bondade de Deus diante do problema do mal e do sofrimento do homem, sua extrema ingenuidade teológica ataca tantos pilares da sã doutrina que não sobra sequer um barraco daquilo que deveria ser, na verdade, um palácio imponente.. A falta de visão das implicações de suas afirmações faz com que tais “doutores”, desejando ministrar vitamina à igreja contemporânea, injetem um veneno letal em suas veias..

Um dos motos criados pelos defensores do teísmo aberto foi a expressão “outro Deus”. A intenção de tal expressão é transmitir a ideia de que a personalidade de Deus defendida pela igreja de tradição histórica, embasada nas Escrituras, não seria, de fato, a expressão de Deus como ele realmente é. Para o teísmo aberto, a visão clássica do Senhor da igreja é resultado de equívocos, cuja consequência é uma igreja alienada do amor de Deus, desconhecedora da liberdade e opressora dos seus seguidores. Essa é, certamente, uma acusação bem séria que exige análise e resposta. Uma coisa é certa: a expressão “outro Deus”, ainda que infeliz nas bases da sua tese, representa a enorme disparidade entre a igreja histórica e os teístas abertos e no campo da “Teologia Própria” – área da teologia que enfoca a pessoa de Deus. Um dos dois grupos realmente crê em “outro Deus”.

Para tratar a questão, é preciso analisar o “outro Deus” proposto pelo teísmo aberto. Apesar de ser um sistema que possui muitos contornos, há algumas afirmações que são fundamentais na divergência entre a teologia ortodoxa e o teísmo aberto.

‘Deus se limita por amor’

Artigos e entrevistas disponíveis na Internet apontam para o fato de que as bases do teísmo aberto não são análises de textos bíblicos que tratam o assunto em questão, mas reflexões pessoais e resistências a conceitos e respostas teológicas ao problema do mal. Assim, pode-se constatar que o pensamento parte de frases negativas como “não consigo crer em um Deus que mate ou que condene” e, também, de questões positivas como “o que significa ‘Deus é amor?’”. Ainda que a inaptidão de alguém em aceitar certa realidade não seja, nem de longe, fator para desacreditá-la, a pergunta sobre o amor de Deus é tremendamente válida e deve ser respondida. O problema não está na pergunta, mas nos pressupostos que guiam a resposta. Artigos publicados dão conta de que proponentes do teísmo aberto iniciaram tal resposta a partir do seguinte pressuposto: “Deus é amor quando dá ao homem liberdade plena”.

Esse pressuposto, criado no íntimo de tais pensadores, foi estendido a implicações de ordem prática. O pensamento progrediu mais ou menos assim: “Se Deus ama o homem, dá a ele liberdade. Liberdade para quê? Certamente, para ditar os rumos da sua vida. Logo, Deus deve conceder tal liberdade não apenas de modo aparente, mas de fato. Para isso, ele não determina o que irá acontecer nem no presente, nem no futuro. Logo, Deus se abstém de exercer a soberania sobre o homem. Contudo, se Deus não controla a história, mas conhece o futuro, essa liberdade que dá é ilusória, pois tudo que o homem fizer sempre vai levá-lo ao mesmo destino. Portanto, para Deus ser de fato amor, ele não somente deve deixar de ser soberano, mas deve deixar, também, de ser onisciente. Desse modo, Deus se limita por amor”..

Essa é uma construção filosófica interessante, mas que não tem qualquer fundamento nas Escrituras para subsistir. Na verdade, essa afirmação existe a despeito do ensino bíblico. Para se ter uma visão melhor sobre esse pensamento filosófico e sua relação com a Palavra de Deus, é preciso analisar as duas principais afirmações do teísmo aberto: “Deus não controla a história” e “Deus não conhece o futuro”.

‘Deus não controla a história’

O apóstolo Paulo disse a Timóteo: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3.16,17). A “utilidade” da Escrituras para instruir os servos de Deus e aperfeiçoá-los deve tornar a Palavra de Deus o critério de avaliação de cada coisa que é dita à igreja que Cristo resgatou. É por meio dela que se deve julgar a afirmação de que Deus limitou sua soberania e se negou a controlar a história por amor ao homem. E, feita a avaliação, deve a igreja rejeitar o erro e reter o que é bom (1Ts 5.21).

Segundo as Escrituras dadas pela ação do Espírito Santo (2Pe 1.20,21), a afirmação de que Deus não exerce soberania por amor dos homens não consegue permanecer. Paulo ensina exatamente o oposto ao dizer que Deus “faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11). Jó, que a princípio ficou confuso diante do sofrimento que atravessava, ao ser exortado pelo Senhor, concluiu: “Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado” (Jó 42.2). Esses textos falam, de maneira muito clara, da soberania do Senhor de modo conceitual. Entretanto, ela pode ser vista em relatos contidos nas Escrituras como exemplos práticos do controle do Senhor sobre a história e do conhecimento que tem de todas as coisas, incluindo o futuro.

Um evento marcante nesse sentido é o “dilúvio”. Enquanto o teísmo aberto afirma que Deus não teve nenhuma participação nos tsunamis dos nossos dias e que ele nem sequer sabia que eles aconteceriam, um tsunami mundial aconteceu depois de Deus avisar previamente e enviá-lo, dando fim à humanidade, com exceção de Noé e de sua família.. Gênesis 6 apresenta Deus em pleno uso de sua onisciência e soberania:

a) Deus teve um propósito no evento: “Disse o Senhor: Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus; porque me arrependo de os haver feito” (Gn 6.7 cf. v.5).

b) Deus anunciou previamente o que faria e, de fato, o fez: “Porque estou para derramar águas em dilúvio sobre a terra para consumir toda carne em que há fôlego de vida debaixo dos céus; tudo o que há na terra perecerá” (Gn 6.17 cf. 7.11,12)..

É claro que nem sempre a soberania do Senhor foi bem aceita pelos homens. Em Babel, os homens se rebelaram contra Deus a fim de cumprirem suas próprias vontades, o que Deus não permitiu, separando-os “efetivamente”.. Mesmo decididos e organizados, os homens da antiga Mesopotâmia não conseguiram fazer sua “liberdade” prevalecer contra os planos do Senhor: “E o Senhor disse: Eis que o povo é um, e todos têm a mesma linguagem. Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo que intentam fazer. Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que um não entenda a linguagem de outro. Destarte, o Senhor os dispersou dali pela superfície da terra; e cessaram de edificar a cidade” (Gn 11.6-8).

Não dá para alistar cada relato bíblico no qual o Senhor cumpre sua vontade com poder irresistível. Assim, um bom modo de notar, de maneira sucinta, a soberania de Deus sobre o homem, é observar seu controle sobre os rumos das nações por meio dos seus governos. Poderosos governantes foram instituídos e depostos por Deus. Paulo afirma que cada governante recebe de Deus seu cargo: “Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas” (Rm 13.1). Caso alguém queira contradizer tal ideia, afirmando que Deus determinou os tipos de governo, mas não os detentores do poder, o livro de Daniel torna seu efeito sua tentativa, ao dizer: “O Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer” (Dn 4.33b). Deus vai além e não somente coloca as pessoas que quer no poder, mas as utiliza na execução do seu plano previamente traçado, como aconteceu em Jerusalém: “Porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel, para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram” (At 4.27,28 – destaque meu).

As afirmações sobre a soberania de Deus aplicada à história da humanidade são tantas e tão contundentes que não há como atacá-las.. Entretanto, os ataques do teísmo aberto não se dão somente à soberania em si, mas aos propósitos de Deus. Para o teísmo aberto, Deus nunca teria propósitos em uma catástrofe, pois seus únicos propósitos teriam relações unicamente com o amor e com a felicidade de todas as pessoas.

Não é possível sondar os propósitos e a mente do Senhor (Rm 11.33-35). Entretanto, olhando para situações semelhantes nas Escrituras, é possível notar propósitos de Deus que são concomitantemente viabilizados por meio de uma situação de crise:

a) Bem dos crentes que sobrevivem à tragédia. Nem todo benefício da vida cristã vem da alegria e do consolo. O crescimento do servo de Cristo vez por outra se dá no meio de provações. É por meio delas que eles desenvolvem a dependência de Deus, aprendem a ser fiéis em tudo e são despertados para a necessidade de nutrir a esperança futura. Por isso, Tiago afirma: “Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes” (Tg 1.2-4).

b) Traslado dos crentes que morrem para junto de Deus. A vida do homem nesse mundo está longe de ser a realidade final da sua existência. Mais ainda do servo de Deus, visto que aguarda uma pátria e uma existência superior: “Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, o qual transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória, segundo a eficácia do poder que ele tem de até subordinar a si todas as coisas” (Fp 3.20,21). Desse modo, a morte, seja em uma tragédia, seja em uma cama confortável, sempre leva o crente à presença maravilhosa do Senhor. O cristão não teme a morte, pois seu segundo estado é sempre melhor que o primeiro, pelo que é verdadeiro o texto que diz que “preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos” (Sl 116.15). Paulo concordava com isso e declarava seu “desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor” (Fp 1.23).

c) Convite de conversão aos incrédulos. Um evento de natureza catastrófica costuma assustar muito os homem e fazer temer aqueles que não têm a paz que vem da certeza da salvação e da vida eterna. Nesses momentos, é muito comum homens e mulheres refletirem sobre a transitoriedade da vida humana e sobre a necessidade de se buscar um abrigo seguro que os proteja, não dos efeitos das catástrofes, mas dos efeitos da morte. Desse modo, muita gente é chamada por Deus à salvação em Cristo por meio de situações catastróficas. As igrejas e as agências missionárias, sabendo disso, sempre se empenham por divulgar a mensagem de Cristo aos sobreviventes de tragédias como as do Japão, do Haiti e de Petrópolis (RJ). Um exemplo da oportunidade evangelística em uma crise é o do terremoto de Filipos promovido pelo Senhor para aliviar Paulo e Silas. O carcereiro de Filipos, vendo as celas abertas depois de um terremoto, intentou tirar sua vida. Foi quando ele ouviu a mensagem do evangelho e foi salvo por Cristo: “De repente, sobreveio tamanho terremoto, que sacudiu os alicerces da prisão, abriram-se todas as portas, e soltaram-se as cadeias de todos. O carcereiro despertou do sono e, vendo abertas as portas do cárcere, puxando da espada, ia suicidar-se, supondo que os presos tivessem fugido. Mas Paulo bradou em alta voz: Não te faças nenhum mal, que todos aqui estamos! Depois, trazendo-os para fora, disse: Senhores, que devo fazer para que seja salvo? Responderam-lhe: Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa. E lhe pregaram a palavra de Deus e a todos os de sua casa” (At 16.26-28,30-32).

d) Punição de homens rebeldes. Tragédias também podem servir a propósitos punitivos do Senhor em relação a homens que se mantêm rebeldes à sua Palavra e distantes da sua santidade. Basta olhar para a rebelião no meio de Israel liderada por Corá, Datã e Abirão (Nm 16). Deus resolveu a questão punindo os rebeldes. O modo da punição foi um tremor de terra que engoliu os homens a quem o Senhor abateu: “E aconteceu que, acabando ele de falar todas estas palavras, a terra debaixo deles se fendeu, abriu a sua boca e os tragou com as suas casas, como também todos os homens que pertenciam a Corá e todos os seus bens. Eles e todos os que lhes pertenciam desceram vivos ao abismo; a terra os cobriu, e pereceram do meio da congregação” (Nm 16.31-33).

e) Sinais dos tempos. Jesus utilizou essa expressão (Mt 16.3) para dizer que alguns eventos, como sua ressurreição, apontam para a veracidade da revelação e para o progresso do curso da história em direção aos eventos escatológicos. Antes desses dias, disse Jesus, muitas coisas deveriam acontecer, incluindo tragédias: “E, certamente, ouvireis falar de guerras e rumores de guerras; vede, não vos assusteis, porque é necessário assim acontecer, mas ainda não é o fim. Porquanto se levantará nação contra nação, reino contra reino, e haverá fomes e terremotos em vários lugares” (Mt 24.6,7).

‘Deus não conhece o futuro’

A fim de complementar a tese da total liberdade do homem, o teísmo aberto também afirma que Deus desconhece o futuro. Segundo essa visão, Deus fica tão surpreso quanto os homens quando algo inesperado acontece. E não se trata apenas de grandes eventos como uma catástrofe natural, mas, também, de eventos corriqueiros como uma partida de futebol, à qual Deus tem de aguardar o término a fim de conhecer o placar final.

É claro que esse pensamento não é derivado das Escrituras.. Toda a Bíblia aponta em outro sentido e apresenta o Senhor como Deus “onisciente”.. Ele sabe tudo que acontecerá e programou previamente tudo que fará: “Desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade” (Is 46.10). Para que não haja enfado na apresentação das provas bíblicas da onisciência de Deus, cinco exemplos básicos do seu conhecimento prévio dos acontecimentos são capazes de provar aquilo que é inquestionável..

a) A fome nos dias de José. Deus deu um sonho a Faraó e somente José foi capaz de interpretá-lo. Ele anunciava previamente algo que aconteceria nos próximos catorze anos. Seriam sete anos de fartura e de boas colheitas, seguido por sete anos de fome. O anúncio prévio do Senhor sobre algo que ainda não tinha ocorrido foi justamente o que salvou toda a região da fome e preservou a família de Jacó de perecer. Ao revelar o sonho, José disse que “Deus manifestou a Faraó o que há de fazer” (Gn 41.25b).

b) Estátua de Nabucodonosor. Nabucodonosor também teve um sonho: uma estátua feita de diversos materiais. Daniel, recebendo de Deus o significado do sonho, revelou ao rei que cada material, começando pela cabeça e seguindo em direção aos pés, eram reinos do mundo. O primeiro deles era a própria Babilônia, à qual Nabucodonosor comandava. Ao longo da história, os reinos se sucederiam até que uma pedra vinda dos céus os destruiria a todos. Essa profecia, que prevê os rumos do mundo desde o tempo de Nabucodonosor até a volta de Cristo, é tão impressionante e precisa, que teólogos liberais se negam a acreditar que tenha sido escrita nos dias de Daniel (século 6 a.C.). Tais teólogos propõem que ela data do século 1 ou 2 a.C.. e que foi mascarado como se fosse de época bem mais antiga. A precisão da profecia fez o liberalismo teológico considerar tal predição um vaticinium ex eventum, ou seja, uma profecia feita depois do ocorrido. Essa falácia não resiste à verdade. A verdade é que Deus conhecia e fez saber os rumos da política internacional desde aqueles dias até o fim da nossa era, pelo que Daniel disse ao rei: “Aquele, pois, que revela mistérios te revelou o que há de ser” (Dn 2.29b).

c) A destruição do altar pagão por Josias. Depois da divisão de Israel em dois reinos (931 a.C.), Jeroboão construiu no reino do Norte dois altares, um em Dã e outro em Betel. Um profeta de Judá foi enviado por Deus a Betel, onde Jeroboão oferecia sacrifícios no altar. Disse o profeta: “Altar, altar! Assim diz o Senhor: Eis que um filho nascerá à casa de Davi, cujo nome será Josias, o qual sacrificará sobre ti os sacerdotes dos altos que queimam sobre ti incenso, e ossos humanos se queimarão sobre ti” (1Rs 13.2). Essa predição, como nome e sobrenome – Josias, da casa de Davi – foi feita na segunda metade do século 10 a.C. Seu cumprimento, exatamente pelo rei Josias, descendente do rei Davi, se deu perfeitamente, como previsto, na segunda metade do século 7 a.C., cerca de trezentos anos depois, conforme revela a seguinte narrativa: “Olhando Josias ao seu redor, viu as sepulturas que estavam ali no monte; mandou tirar delas os ossos, e os queimou sobre o altar, e assim o profanou, segundo a palavra do Senhor, que apregoara o homem de Deus que havia anunciado estas coisas” (2Rs 23.16).

d) A subjugação da Babilônia por Ciro. O Senhor determinou que a Babilônia dominaria os reinos, mas veria logo seu ocaso – o que ocorreu em 539 a.C. com a queda da Babilônia. Como veículo da destruição do império babilônico, Deus anunciou, por meio do profeta Isaías, quem seria o algoz do império caldeu, dizendo: “Assim diz o Senhor ao seu ungido, a Ciro, a quem tomo pela mão direita, para abater as nações ante a sua face, e para descingir os lombos dos reis, e para abrir diante dele as portas, que não se fecharão” (Is 45.1). Ainda que alguém possa dizer que essa declaração não passou de um “bom palpite” de Deus, outra declaração foi feita de modo a descrever, com precisão, a atuação do líder medo-persa: “O Senhor amou a Ciro e executará a sua vontade contra a Babilônia, e o seu braço será contra os caldeus” (Is 48.14b cf. Es 1.1). Essas palavras foram registradas no final do século 8 a.C. e se cumpriram na segunda metade do século 6 a.C., exatamente como predito por aquele que tudo conhece..

e) Os eventos do Apocalipse. Cerca de um quarto das Escrituras são profecias, das quais boa parte trata de coisas que ainda não aconteceram. Tanto o livro do Apocalipse, como profecias do Antigo e do Novo Testamento, apontam para eventos futuros que preveem o juízo de Deus sobre o mundo, conversão e perseguição de israelitas e de gentios crentes, o domínio do anticristo por certo tempo, o retorno de Jesus vencendo os ímpios e promovendo julgamentos, a restauração de Israel na terra prometida a Abraão, a entronização do rei prometido a Davi, a produção de um novo coração nos israelitas como prometido por Jeremias e, ao final de tudo, um novo céu e uma nova terra. Deus anunciou todas essas coisas ao seu povo a fim de lhes dar segurança da vitória e consolo nas tribulações. Nada disso seria possível caso fosse verdadeira a tese de que Deus não conhece o futuro.. Na verdade, toda a Escritura seria falsa e perderia o valor. A igreja de Deus nem sequer saberia o que é “esperança”. O máximo que poderia acontecer seria Deus fazer previsões que não poderia cumprir, torcendo para darem certo. Na verdade, esse pensamento é tão absurdo como contrário ao cristianismo. Para o escritor bíblico, a certeza de que as promessas de Deus se cumprirão é a marca da fé cristã genuína: “Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem [...] Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas; vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra (Hb 11.1,13).

‘Ou Deus controla tudo ou ele ama’

A conclusão a que o teísmo aberto chega, que obviamente necessita de análise e resposta, é que “o controle não combina com o amor”.. A tese é que, “se Deus ama de verdade, não controla as pessoas”.. Em defesa de tal tese são ditas frases fortes como: “Um Deus que tem propósito pra tudo, inclusive para o mal, é réu confesso! E a pena deveria ser a morte! Um Deus que tem propósito na miséria humana, na violência, na dor, é, na verdade, um diabo!”.

Mais uma vez, não é da Bíblia que vêm tais pensamentos. Nas Escrituras, o amor de Deus não é demonstrado por meio da ausência de controle, mas:

a) Pelo sacrifício de Jesus em lugar do pecador. Para promover uma profunda mudança na vida de pecadores perdidos, mortos em seus pecados (Ef 2.1), o amor de Deus se revelou enviando seu Filho para morrer por pessoas que nem mereciam, nem queriam ser alvos de tal benefício. A isso a Bíblia chama de amor: “Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados” (1Jo 4.10).

b) Por um controle que livra o redimido da escravidão do pecado e o submete a Cristo. O amor de Deus não dá livre curso à vontade do homem porque essa, depois da queda, se tornou má (Ec 7.29; Rm 3.10-12), seu entendimento ficou corrompido (2Co 4.3,4) e ele passou a ser dominado por satanás (Ef 2.2). Não há liberdade na vida do perdido; apenas escravidão (Rm 7.14). A atuação amorosa de Deus liberta os pecadores dessa condição, livrando-os da morte e do pecado (Rm 8.2), mas sem deixá-los sem um Senhor. A liberdade dada por Deus é a liberdade para servi-lo. Deixamos de servir o pecado para servir a Cristo, pelo que diz o apóstolo: “Porque o que foi chamado no Senhor, sendo escravo, é liberto do Senhor; semelhantemente, o que foi chamado, sendo livre, é escravo de Cristo” (1Co 7.22 cf. Rm 6.18,22). Na Bíblia, a liberdade cristã não é “ausência de um senhor”, mas a “submissão ao Senhor correto” – o Senhor Jesus Cristo.

Esse controle salutar do Pai celestial sobre os filhos redimidos é prova de amor e garantia de felicidade. Até as correções do Senhor, prova contundente do seu controle, são evidências marcantes do seu amor pela igreja: “Porque o Senhor corrige a quem ama e açoita a todo filho a quem recebe” (Hb 12.6). Essa lógica não é apenas divina. A falácia do teísmo aberto é destruída até mesmo no trato dos pais humanos com seus filhos. Jesus perguntou, certa vez: “Ou qual dentre vós é o homem que, se porventura o filho lhe pedir pão, lhe dará pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma cobra?”(Mt 7.9,10).. O óbvio é que os pais não dão plena liberdade aos seus filhos, nem deixam que todos os seus desejos se cumpram. Fazem isso por maldade? Ao contrário! Fazem-no por amor, a fim de garantir o bem dos filhos. Desse modo, “controlar para produzir segurança e um fim proveitoso é prova de verdadeiro e leal amor”.

Por isso, a atitude correta dos cristãos diante do Pai eterno não é a de buscar liberdade do seu controle, mas se submeter a ele, como revelam as orações dos escritores neotestamentários: “Pois espero permanecer convosco algum tempo, se o Senhor o permitir” (1Co 16.7 – destaque meu); “Isso faremos, se Deus permitir” (Hb 6.3 – destaque meu).

Conclusão

Ao final dessa reflexão, algumas conclusões são bem claras:

a) Apesar da tristeza e dos sofrimentos produzidos por uma catástrofe como a do Japão, a verdade é que nada acontece sem que Deus tenha planejado e efetuado. Seus propósitos são cumpridos nesses eventos e nos demais a fim de glorificar seu nome, edificar a igreja, chamar perdidos ao arrependimento, punir o pecado e anunciar o retorno de Cristo. Em tudo, inclusive nos eventos tristes que não compreendemos, a vontade de Deus é “sempre boa, perfeita e agradável” (Rm 12.2).

b) O teísmo aberto é expressão de uma visão aversa às Escrituras.. Suas fontes comumente citadas – ateus que se dedicaram a atacar a credibilidade das Escrituras como Nietzsche, Sartre e Espinoza – não são confiáveis para a verdadeira igreja de Cristo, nem lhe trazem nada de salutar, nem tampouco conseguem anular a validade e a veracidade da Palavra de Deus..

c) O “deus” proposto pelo teísmo aberto, um simulacro do homem, realmente é “outro deus” como a própria posição propõe. Trata-se de um deus estranho às Escrituras, estranho ao povo redimido por Cristo e estranho ao Deus eterno, Todo-poderoso, aquele que conhece todas as coisas e que controla tudo que acontece para o bem “daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28 – destaque meu).



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