quarta-feira, 29 de maio de 2013

Cristo, a escritura e o cristão

Por Marcelo Berti

A escritura é fonte de prazer (Sl.1.2) e o fundamento do sucesso (Js.1.8) para o cristão que nela medita de dia e de noite e aplica em sua vida os princípios apresentados por Deus em suas páginas (veja mais aqui). A escritura é o depósito da verdade divina que transforma a vida daquele que se dedica a conhecer a Deus através de seus escritos. É nela que Deus se dá a conhecer Sua pessoa e vontade por meio de Cristo. No capítulo 17 do evangelho de João nós encontramos a mais expressiva oração de Cristo. Segundo nos instrui o evangelho, Cristo ora por Si mesmo (v.1-5), por Seus discípulos (v.6-19) e por fim por todos nós (v.20-26). E nessa oração encontramos três características de Cristo, como nosso mediador e revelador do Pai que nos impelem a conhecê-Lo ainda mais profundamente. É portanto, fundamental para o cristão que almeja desfrutar de um relacionamento de intimidade com Deus conhecer a verdade divina através de Jesus Cristo.

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quarta-feira, 22 de maio de 2013

A Igreja Sempre Perseguida

Por Thomas Tronco

“E Saulo consentia na sua morte. Naquele dia, levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém; e todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judeia e Samaria. Alguns homens piedosos sepultaram Estêvão e fizeram grande pranto sobre ele. Saulo, porém, assolava a igreja, entrando pelas casas; e, arrastando homens e mulheres, encerrava-os no cárcere” (At 8.1-3).

O texto acima descreve a primeira perseguição severa contra a igreja cristã. Por um lado, o ódio do mundo
contra a igreja era esperado, já que ele prenunciado por Jesus: “Lembrai-vos da palavra que eu vos disse: não é o servo maior do que seu senhor. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros” (Jo 15.20a). Por outro lado, é bem possível que os irmãos de Jerusalém tenham se surpreendido com a mudança brusca de sentimento e de tratamento da sociedade dos seus dias. Isso porque o início da igreja foi marcado pelo sentimento de simpatia da comunidade judaica: “Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo” (At 2.46,47a).

Talvez aqueles irmãos se perguntassem: “O que mudou?”. A resposta é encontrada no sexto capítulo de Atos: “Estêvão, cheio de graça e poder, fazia prodígios e grandes sinais entre o povo. Levantaram-se, porém, alguns dos que eram da sinagoga chamada dos Libertos, dos cireneus, dos alexandrinos e dos da Cilícia e Ásia, e discutiam com Estêvão; e não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito, pelo qual ele falava” (At 6.8-10). A pregação do Evangelho, o testemunho de vida e a sabedoria de Deus para responder às acusações fizeram de Estêvão e dos demais crentes pessoas odiadas pelos inimigos de Deus. O resultado foi o apedrejamento do diácono de Jerusalém e o início de uma acirrada perseguição a todos quantos professassem Jesus Cristo como Deus e salvador pessoal. A partir daí, o texto escrito por Lucas revela uma dinâmica que atravessa a história da igreja de Deus.

Em primeiro lugar, o mundo persegue a igreja com grande ódio. O capítulo 7 de Atos narra o julgamento e a morte de Estêvão, enquanto o início do oitavo capítulo revela a aprovação de Saulo, conhecido depois da sua conversão como apóstolo Paulo. Sua aprovação talvez se devesse à possibilidade de que ele mesmo, como um dos que vieram da Cilícia (At 6.9), ter sido contradito e envergonhado pela pregação do diácono mártir. Mas se fosse somente por isso, assim que o adversário estivesse morto todo ódio devia cessar, o que nem de perto ocorreu. Na verdade, uma severa perseguição tomou lugar em Jerusalém (At 8.1) e nem mesmo os lares ou seus direitos básicos dos crentes eram respeitados (At 8.3). Com o passar dos dias, o ódio não apaziguado tomou formas mais decididas e cruéis, inclusive em Paulo: “E assim procedi em Jerusalém. Havendo eu recebido autorização dos principais sacerdotes encerrei muitos dos santos nas prisões; e contra estes dava o meu voto, quando os matavam. Muitas vezes, os castiguei por todas as sinagogas, obrigando-os até a blasfemar. E, demasiadamente enfurecido contra eles, mesmo por cidades estranhas os perseguia” (At 26.10,11).

Em segundo lugar, independente do que sinta ou faça o mundo, Deus mantém sua igreja viva e operante. Apesar de a igreja ter respondido à perseguição com uma fuga maciça, nem todos fugiram de Jerusalém, pois os apóstolos permaneceram na cidade e vários irmãos permaneceram na própria região da Judeia. O fato de os líderes da igreja não terem sido exterminados, mesmo estando tão perto dos perseguidores, não se deve a nenhum tipo de imunidade diplomática. Na verdade, eles deveriam ser alvos prioritários dos inimigos e o fato de isso não ter ocorrido revela a proteção de Deus para eles e para as pessoas que foram sendo acrescentadas à igreja daí para frente por meio da fé em Jesus, já que o próprio Paulo revela a existência de várias igrejas na região (Gl 1.22-24). Esse fato surpreendente, apesar de não ser declarado abertamente por Lucas em Atos, é interpretado por meio das palavras de Jesus como uma ação divina: “Edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18).

Por último, também percebemos que o Senhor expande a igreja por meio da perseguição. Há quem olhe para perseguições assim e, cheio de autocomiseração, lamente a má sorte do povo de Deus. Porém, o que ocorreu foi que, tendo de fugir, os crentes foram se radicando em cidades em que passaram a pregar o Evangelho, pelo qual o Senhor salvou pecadores que estavam fora do alcance da pregação antes da perseguição: “Entrementes, os que foram dispersos iam por toda parte pregando a palavra” (At 8.4). Com isso, o avanço das boas novas da salvação tomou um caráter definitivo e oficial que foi fruto de uma profunda transformação da visão e da prática da igreja já estabelecida: “Ouvindo os apóstolos, que estavam em Jerusalém, que Samaria recebera a palavra de Deus, enviaram-lhe Pedro e João” (At 8.14). Desse modo, o Senhor, por um meio misterioso para os crentes daqueles dias — a morte de um líder e a perseguição feroz da igreja —, alcançou pessoas perdidas de todas as partes e amoldou o seu povo ao propósito missionário que traçou para ele. Resumindo, quanto mais a igreja era caçada, mais ela crescia e alcançava novos territórios.

domingo, 12 de maio de 2013

Perigos na interpretação

Por Marcelo Berti

Recentemente escrevi um artigo que chamou a atenção de muitas pessoas por seu conteúdo relativamente polêmico. No post O Papa, Pedro e a Pedra apresentei minha preferência na interpretação do texto de Mateus 16.18, e afirmei que a pedra referida por Cristo naquela passagem, refere-se a Pedro, e não à confissão de Pedro ou a Jesus Cristo. Por ser conhecida como uma interpretação oferecida pelos Católicos, recebi algumas reações à minha proposta de interpretação, afirmando que teria violado o texto, rasgado as escrituras e inserido nas escrituras uma terrível heresia.

O fundamento de tal afirmação é que eu teria interpretado o verso e esquecido do resto das escrituras que apontam para Cristo como o fundamento da igreja (um perigo real e comum que deve ser evitado). Em outras palavras, o equívoco residia na aplicação dos princípios da hermenêutica. Embora tenha completa consciência de como o tema é polêmico e que as opiniões nesse texto são historicamente divergentes, acredito que a interpretação natural do texto é que Pedro é a Pedra (para mais informações, leia o artigo).

Entretanto, aqueles que se opuseram a minha interpretação, apresentaram princípios hermenêuticos que teria violado, o que me faz escrever esse post sobre perigos na interpretação. Usando o texto de Mat.16.18 (e outros exemplos), vou apresentar alguns dos equívocos que normalmente se comete (eu mesmo já cometi) e que fazem muita diferença na interpretação de textos mais difíceis.

A. A confusão entre “regra” e “princípio”

Uma confusão recorrente nos argumentos teológicos, especialmente na internet, é que existem regras hermenêuticas que determinam qual tal interpretação não é possível. Por exemplo, afirmar que Pedro é a pedra em Mat.16.18 é errado por que diante do todo das escritura Cristo é o fundamento da igreja. Logo, a pedra tem que ser Cristo.

Nesse exemplo, o argumento é baseado em um princípio hermenêutico válido, mas usado de modo equivocado. O princípio é: A interpretação da parte deve se conformar com o a informação do todo. Ou seja, em textos mais obscuros a claridade de textos mais claros serve para iluminar o texto a ser interpretado. Entretanto, isso é um princípio hermenêutico, não uma regra hermenêutica, como muitas vezes é aplicado.

A diferença é simples: A regra é fixa, o princípio é flexível. Em outras palavras, a regra delimita, o princípio delineia. Princípios hermenêuticos não foram estabelecidos como regras fixas de um jogo, foram estabelecidas como guias na interpretação, e transformá-los em regras é atribuir uma função para o qual não foram desenhadas. O resultado disso pode ser desastroso.

Por exemplo, algumas pessoas usando esse princípio como regra, fazem com que o TODO da escritura seja SOBREPOSTO sobre a parte interpretada. Inconscientes do que estão fazendo, eles inserem sua visão pessoal do todo, sobre o texto que querem interpretar e inserem sobre o texto suas perspectivas pessoais. Ou seja, o texto (parte)  não pode acrescentar nada ao todo da escritura. Em outras palavras, na tentativa de fazer exegese, fazem eisegese. Em nosso exemplo, o princípio é válido, mas não sua aplicação.

Entretanto, considerando que o princípio é válido, como podemos entender o fato de que Pedro é a pedra, diante da afirmação da escritura de que Cristo é o fundamento da igreja? Para responder a essa pergunta, você terá que ler o artigo.