terça-feira, 13 de novembro de 2012

Ídolos do coração

Por Ivis Fernandes

Algo que pode intrigar muitos estudiosos da Palavra de Deus é como o povo de Israel pôde envolver-se com a idolatria mesmo testemunhando tão de perto a ação divina. Logo após contemplar as grandes realizações de Deus ao livrá-los da escravidão do Egito, o povo abandonou ao Senhor e se envolveu na adoração de um bezerro de ouro (Gn 32). Como Israel poderia cometer tamanha loucura? Parece algo extremamente difícil de entender e aceitar. Corre-se o risco de pensar que hoje nunca faríamos nada semelhante a isso.

Contudo, quando analisamos a Palavra de Deus mais atentamente, vemos que também os cristãos podem cair no mesmo erro, embora de uma forma um pouco distinta. Dificilmente veríamos um autêntico cristão prostrado diante de uma imagem. Porém, infelizmente, está se tornando cada vez mais comum observarmos crentes presos a hábitos pecaminosos escravizadores. A idolatria acontece no seu interior. Pessoas se prostram diante de ídolos que colocam em seus corações, adoram-nos e satisfazem os seus desejos.

A idolatria ainda persiste em nossos dias. Contudo, teremos uma visão limitada se entendermos que ela está restrita apenas à adoração de imagens feitas por pagãos. Existe um número cada vez maior de idólatras nas igrejas. O problema é que muitos ainda não se deram conta disso. É preciso entender este problema à luz das Escrituras, de modo que a igreja possa prestar um auxílio eficaz no combate a este pecado tão abominável aos olhos do Senhor.

Apesar da adoração a imagens e outros deuses ser uma prática igualmente abominável diante de Deus, nosso foco está voltado para a idolatria do coração. Isso se deve a três motivos básicos. O primeiro deles é que, nos evangelhos, vemos que Jesus voltou-se para o coração do homem, preocupado não apenas com as ações em si, mas com o interior humano. O segundo refere-se ao fato de que todo comportamento pecaminoso (inclusive a adoração de imagens) está ligado ao coração e, desse modo, a transformação deve partir daí. Além disso, o terceiro motivo refere-se ao fato de que, como já mencionamos, o principal problema dos cristãos em nossos dias não está tão ligado à idolatria de imagens quanto à idolatria do coração.

O presente estudo parte do pressuposto de que se está abordando um cristão. Apenas a graça de Deus manifestada em Cristo torna possível qualquer tipo de transformação genuína e duradoura. Desse modo, caso o indivíduo em busca de ajuda não seja cristão, é necessário um pré-aconselhamento, que foca o evangelho.

Este trabalho se propõe a compreender biblicamente a idolatria do coração, que se manifesta em muitos e distintos tipos de pecado. A compreensão do pecado sob a forma de ídolos do coração auxilia o conselheiro bíblico a ajudar pessoas que lutam contra seus pecados. Conforme afirma David Powlison:

“se quisermos ajudar as pessoas a volver os olhos e ouvidos para Deus, devemos saber bem quais os deuses alternativos que clamam por atenção. Essas forças e influências não determinam e nem desculpam o nosso pecado. Mas nutrem, canalizam, e exacerbam nossa pecaminosidade em determinadas direções. Freqüentemente são influências atmosféricas, invisíveis, inconscientes. O arrependimento consciente começa a florescer quando eu vejo tanto as minhas distorções quanto as distorções que me são impingidas pelas outras pessoas.” (grifo nosso).

Não se trata, contudo, de um estudo exaustivo. Os limites deste trabalho permitem apenas uma visão panorâmica sobre o assunto, traçando linhas gerais, que consistem numa introdução ao tema. Além disso, seria excessiva pretensão querer resumir em poucas páginas a complexidade do coração pecaminoso do homem, ao qual foram dedicados muitos volumes redigidos por pessoas competentes e profundamente conhecedoras do assunto.

Entretanto, isso não significa que o coração humano não possa ser compreendido de forma objetiva e simples. Por trás da complexidade e variedade de expressões pecaminosas, que são fruto da singularidade de cada ser humano, existem fundamentos gerais, comuns a todas as pessoas. Nas palavras de Jay Adams:

Abaixo dos estilos variados de pecado existe muito em comum. (...) Os estilos (combinações de pecados e evasões) são peculiares de indivíduo para indivíduo; porém, abaixo desses estilos ficam os temas comuns. O trabalho do conselheiro consiste em descobrir esses temas abaixo das individualidades .

Este trabalho se propõe a buscar compreender estas linhas gerais, que estão por trás de todo comportamento pecaminoso, fazendo isso da perspectiva das Escrituras. Não negligenciamos, entretanto, a perspectiva secular e humanista e nem mesmo o ponto de vista daqueles que buscam conciliar a Palavra de Deus com a palavra de homens. Apesar destas vertentes terem sido analisadas durante o processo de pesquisa, pouca atenção é dedicada a elas, pois a ênfase principal do trabalho é compreender o que a Bíblia diz sobre o assunto.

Também buscaremos identificar qual é o caminho que conduz à idolatria, de modo a podermos seguir o caminho inverso, de acordo com a orientação das Escrituras, e eliminar os ídolos, utilizando uma fórmula bíblica para entendê-los e tratá-los. Além disso, esta pesquisa se propõe a apresentar estudos de casos bíblicos, nos quais serão verificadas as questões do coração, nos moldes propostos por este trabalho. Por fim, apresentaremos alguns elementos práticos para o aconselhamento bíblico, bem como perguntas a serem utilizadas no momento do aconselhamento e também tarefas práticas, que poderão ser dadas ao aconselhado com vistas a representarem uma forma de ajudá-lo a praticar os princípios bíblicos sobre o tema, e assim livrar-se de práticas pecaminosas.




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segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O problema do mal

Por Carlos Osvaldo Pinto


A existência do mal, em suas variadas formas, mas particularmente naquelas que são aparentemente injustificadas, levanta dificuldades lógicas e psicológicas quanto à existência e/ou ao caráter de Deus. Embora raramente isso seja levantado pelos que argumentam contra a existência de Deus por causa da presença do mal no universo, o problema não é uma questão de grau, mas de simples existência.

 “Mal” é um termo de difícil definição, em particular devido à natureza limitada de nosso conhecimento e à falta de um acordo quanto à perspectiva a partir da qual tentar uma definição.

Via de regra, mesmo teístas ardorosos acabam adotando uma definição antropocêntrica do mal, e isso lhes dificulta um tratamento exegético adequado da evidência bíblica.

Por outro lado, uma definição mais teocêntrica fecha a possibilidade de um diálogo significativo com os “ateólogos”.

Em geral, um evento é entendido como “mal” (ou, se quisermos adjetivar, “mau”) se:
  • Causar algum dano (de qualquer dimensão) ao bem estar físico e/ou emocional de uma criatura capaz de sensação;
  • Ocorrer algum tratamento desumano ou injusto de uma criatura capaz de sensação;
  • Causar perda de oportunidade ou desenvolvimento por causa de doença e/ou morte, particularmente “prematura”;
  • Impedir que um indivíduo leve uma vida significativa e/ou virtuosa;
  • Violar algum código moral ou roubar direitos essenciais a alguém;
  • Constituir a “privação” ou a deterioração de algum “bem”.

Taxonomia do Mal

Mal Moral. Esta categoria engloba males que resultam do mau uso da capacidade de escolha de algum agente moral. Inclui atos específicos de “maldade” (mentira, desonestidade, violência, destruição) em maior ou menor grau.

Mal Natural. Em contraste com o mal moral, o mal natural resulta da operação de processos naturais, nos quais nenhum agente moral pode ser responsabilizado pelo dano resultante. Exemplos clássicos são desastres naturais como furacões e tornados, terremotos e maremotos, deslizamentos de terra e enchentes, e também doenças devastadoras como a leucemia e o mal de Alzheimer.

Uma qualificação importante

Boa parte do que é considerado males naturais consiste, na verdade, de males morais precipitados por negligência, ganância ou pura e simples estupidez humana.
  • Câncer no pulmão pode ser causado por fumo inveterado.
  • Destruição em massa num terremoto pode ser causada pela ganância de empreendedores ou neligência de governantes (ou ambos).
  • Enchentes têm como causa frequente a irresponsabilidade de cidadãos e/ou  governantes.

Quando causados pelo exercício da vontade de agentes morais, tais males são melhor qualificados como morais, ou pelo menos híbridos, i.e., males naturais exacerbados por erros de natureza moral.

Uma maneira alternativa de dizer isso seria classifcar como  males naturais apenas aqueles cuja ocorrência não pode ser atribuída a agentes morais meramente humanos.

Uma categoria à parte é a do chamado mal hediondo, no qual agentes morais exacerbam a violência, a crueldade, a desumanidade em nome de preferências ou ojerizas pessoais.

Holocausto
  • Linchamentos tipo Ku-Klux-Klan (e garotões de Brasília)
  • Cárceres privados e incestos
  • É geralmente essa categoria de males que provoca o desafio dos ateólogos à existência de Deus.