terça-feira, 28 de agosto de 2012

John Wycliffe: O amor de Cristo nos constrange

Por Franklin Ferreira

Uma igreja em declínio

Durante o século XV houve algumas tentativas de reforma da igreja, mas esta reforma não era dirigida contra as questões doutrinárias, mas mais contra a vida religiosa na prática, em particular contra os abusos presentes na igreja medieval. Ao mesmo tempo, houve outro movimento de reforma muito mais radical, que não se contentava em atacar questões referentes à vida e aos costumes, mas queria corrigir também as doutrinas da igreja, ajustando-as à mensagem do evangelho. Entre os que seguiram este caminho, os que mais se destacaram foram John Wycliffe e Jan Huss (1370-1415). Wycliffe viveu durante a época do “cativeiro babilônico” do papado (quando o papado foi estabelecido em Avignon, na França), e no início do “Grande Cisma” (que começou em 1378, quando dois papas rivais tentaram exercer autoridade sobre a igreja). Estes homens prepararam o caminho para a reforma protestante do século XVI.

A época em que Wycliffe viveu era caracterizada pela incerteza e pressões comuns à nossa época. A “peste negra” varreu a Inglaterra e a Europa e, em alguns lugares, um terço da população foi morta. O que ficou conhecido como a “Guerra dos Cem Anos” entre a Inglaterra e a França minou energias e recursos. A igreja possuía mais de um terço das terras da Inglaterra. O clero era normalmente inculto e imoral. Altos cargos na igreja eram comprados ou dados como favores políticos. Aos ingleses desagradava enviar dinheiro para um papa em Avignon, que estava sob influência do inimigo da Inglaterra, o rei da França. O controle dos salários relegava os pobres a uma existência marginalizada e conduziu à violenta Revolta dos Camponeses na Inglaterra, em 1381.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Se eu tiver fé, poderei fazer mais milagres do que Jesus?

Por Augustus Nicodemus Lopes

Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e outras maiores fará, porque eu vou para junto do Pai (João 14.12).

Jesus fez esta promessa aos seus discípulos na noite em que foi traído, antes de ir com eles para o Getsêmani, durante o jantar em que instituiu a Ceia. O Senhor falou que iria para o Pai preparar lugar para os discípulos (Jo 14.1-4), e em seguida explicou como eles chegariam lá (14.5-6). Respondendo ao pedido de Filipe para que lhes mostrasse o Pai, Jesus explica que Ele está de tal forma unido ao Pai, que vê-lo é ver o Pai (14.7-9). E como prova de que Ele está no Pai e o Pai está nEle, Jesus aponta para as obras que realizou (14.10-11). E em seguida, faz esta promessa, “aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e outras maiores fará, porque eu vou para junto do Pai” (14.12).

Este dito de Jesus é difícil porque parece prometer que seus discípulos seriam capazes de realizar os milagres que Ele realizou, e até mesmo maiores, se somente cressem nEle – e pelo que lemos no livro de Atos e na história da Igreja, esta promessa não parece ter-se cumprido. Compreender o real sentido desta passagem tem se tornado ainda mais crucial pois ela tem sido usada, após o surgimento do movimento pentecostal e seus desdobramentos, para defender modernas manifestações miraculosas, iguais e maiores dos que as efetuadas pelo próprio Jesus Cristo.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Quem precisa de apologética?

Por Willian Lane Craig

Para começar, eu acredito que devemos distinguir entre a necessidade e a utilidade da apologética. A distinção é importante. Pois, mesmo se a apologética for absolutamente desnecessária, não se segue que ela seja inútil. Por exemplo, não é necessário saber como digitar para se usar um computador – você pode “catar milho”, como eu faço – mas, todavia, a habilidade de digitar é muito útil para usar um computador. Ou, então, não é necessário conservar sua bicicleta para ir pedalar, mas pode ser um benefício real mantê-la em ordem. Da mesma forma, a apologética cristã pode ser de grande utilidade mesmo se não for necessária para algum fim. Assim, em relação à apologética, precisamos nos perguntar não só “quem precisa?” mas também “para que ela serve?”

Apologética cristã pode ser definida como o ramo da teologia cristã que procura apresentar uma garantia e justificação racional das alegações de verdade do Cristianismo. Aqueles que tratam a apologética com desdém tendem a mensurar o valor da apologética focando em sua suposta necessidade de garantir e justificar a crença cristã. Alguns pensadores, particularmente da tradição reformada holandesa, veem esse papel como desnecessário e algumas vezes até como mal orientado.

Ora, concordo plenamente com os epistemólogos reformados contemporâneos, como Alvin Plantinga, que os argumentos e evidências apologéticas não são necessários para que a crença cristã seja garantida e justificada para qualquer pessoa. A alegação dos racionalistas teológicos (ou evidencialistas, como eles erroneamente são chamados hoje) de que a fé cristã é irracional na ausência de evidências positivas é difícil de ser conciliada com as Escrituras, que parecem ensinar que a fé em Cristo pode ser imediatamente fundamentada no testemunho interno do Espírito Santo (Rm 8.14-16; 1 Jo 2.27; 5.6-10), de modo que os argumentos e evidências se tornam desnecessários.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Desejos que podem matar

Por Milton Jr.
 
“Cada um, porém, é tentado pelo próprio mau desejo, sendo por este arrastado e seduzido. Então esse desejo, tendo concebido, dá à luz o pecado, e o pecado, após ter se consumado, gera a morte”(Tiago 1.14,15 - NVI).

Tiago nos ensina sobre a dinâmica do pecado. Conquanto muitas vezes queiramos dar desculpas para nossas ações pecaminosas, a verdade retratada nesse texto é que pecamos por causa dos desejos do nosso coração. Atente, porém, para um detalhe. Tiago não está falando de qualquer desejo, mas daquele que ele qualifica como “mau desejo”.

Podemos pensar sobre o “mau desejo” em dois sentidos: primeiro, é mau desejo tudo aquilo que é diretamente proibido pela lei de Deus. Só para exemplificar, o desejo de adulterar é em si mau, pois é explicitamente contrário à santa Lei de Deus.

Porém, há outro sentido que devemos considerar. Bons desejos podem tornar-se maus, quando queremos que se concretizem custe o que custar. A Bíblia não proíbe que os filhos de Deus desejem coisas lícitas, mas quando começamos a ser “controlados” por elas a ponto de pecar para conseguir o que queremos ou pecar por não ter conseguido o que queremos significa que um bom desejo tornou-se um mau senhor. Não é sem razão, portanto, que o Senhor Jesus adverte que “onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6.21).

Quando estamos com os olhos fixos somente nos desejos do coração, acabamos por ignorar as ordenanças do Senhor. Permita-me ilustrar isso.

Sempre gostei muito de mergulhar. Quando coloco máscara, canudo (snorkel) e pés de pato (nadadeiras) e me lanço ao mar, quase me esqueço da vida “aqui fora”. Quando eu era ainda um adolescente, costumava pegar, com amigos, peixinhos ornamentais para vender a um revendedor de peixes de aquário, que havia em minha cidade. Alguns peixes eram mais caros e quando encontrávamos um desses era uma grande alegria. Um dia foi a minha vez de achar um desses. Ele era lindo e logo pensei no dinheiro da venda (que hoje reconheço que não era tanto assim... rs) e no prazer de capturar um daqueles. Tomei fôlego, prendi a respiração e mergulhei atrás. Era um peixe arisco! Eu cercava por um lado com a mão, tentando levá-lo à direção da “redinha” que estava do outro lado e ele se escondia atrás de alguma pedra. A vontade de ter aquele peixinho era tanta que me esqueci de uma lei básica: sem oxigênio eu morro! Quando me vi já quase sem fôlego e olhei para cima, os poucos metros de água até a superfície pareciam quilômetros. Tive de nadar muito rápido e cheguei à superfície ofegante. O desejo pelo peixe me fez esquecer uma lei e isso poderia ter me levado à morte.

Creio que é isso que Tiago está ensinando. O mau desejo me leva a desprezar a lei de Deus e eu peco para consegui-lo ou por não tê-lo conseguido. O que se segue é a morte! O mau desejo se torna senhor, um ídolo, que determina como o homem deve agir, desprezando a Lei do verdadeiro Senhor.
Ao exortar Caim, Deus falou exatamente sobre isso: “Se procederes bem [de acordo com a Lei do Senhor], não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal [pecando por obedecer ao desejo],eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas cumpre a ti dominá-lo (Gn 4.7 – grifo meu).


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sábado, 4 de agosto de 2012

Cruz ou Estaca? O que diz a Sociedade Torre da Vigia?

As Testemunhas de Jeová argumentam que a cruz em algum ponto da história cristã, foi recebida como símbolo religioso, oriundo do paganismo. Para eles, o instrumento de tortura era uma estaca ou poste ereto.

Para defender esta posição geralmente argumentam sobre o significado das palavras usadas para descrever o instrumento de punição. Como já vimos no tópico sobre as evidências lingüísticas, as palavras crux, stauros e xulon eram usadas para este fim, geralmente indicando um instrumento de duas traves de madeira. No entanto, em publicações da Torre de Vigia, algumas citações são fornecidas de modo a mostrar que estas palavras significavam apenas um poste ereto, e que estas palavras não poderiam indicar nada diferente disto. Encontramos esta argumentação no livro Raciocínios à base das Escrituras, página 99.

A primeira citação é de The Imperial Bible-Dictionary, onde é dito:
No grego clássico, esta palavra significava meramente uma estaca reta, ou poste. Mais tarde, veio também a ser usada para uma estaca de execução com uma peça transversal. The Imperial Bible-Dictionary reconhece isso, dizendo: “A palavra grega para cruz, [stau-rós], devidamente significava uma estaca, um poste reto, ou pedaço de ripa, em que algo podia ser pendurado, ou que poderia se usado para estaquear [cercar] um pedaço de terreno…. Até mesmo entre os romanos a crux (da qual se deriva nossa cruz) parece ter sido originalmente um poste reto.”
Deve-se notar que aqui, a Torre de Vigia concorda que a cruz como conhecemos, foi usada como instrumento de execução, apesar de dizer que no grego clássico stauros significava apenas uma estaca. Resta definir melhor a que período de tempo eles querem dizer com “mais tarde”. Qualquer leitor desinformado acreditaria aqui que seria muito depois da crucificação de Cristo. Como já vimos este não é o caso. No entanto, nem precisamos recorrer ao que já foi dito acima, para responder este argumento. A Bíblia não foi escrita em grego clássico, e sim, em grego Koiné, que surgiu no ano de 300 A.C. Se a palavra em grego clássico teria mais tarde agregado o significado de cruz, quando o grego Koiné passou a ser usado, stauros já indicava um instrumento com duas traves. Como vimos antes, 300 A.C. é o ano que começamos a ver em escritos, referências à crucificação romana. Estranhamente, no apêndice da Tradução do Novo mundo com referências, a questão do grego clássico e do grego koiné é melhor explicada.