quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Reprimir o desejo sexual faz mal?

 Por Augustus Nicodemus

Sempre recebo comentários de alguns leitores de que a abstinência sexual defendida por mim e outros escritores e pastores provoca nos jovens evangélicos traumas e neuroses. Ou seja, passar a adolescência e a mocidade sem ter relações sexuais faz com que os evangélicos fiquem traumatizados, perturbados mental e espiritualmente, reprimidos e recalcados.

Esse raciocínio tem sua origem mais recente nas idéias do famoso Sigmund Freud. Para ele, o sexo era o fator dominante na etiologia das neuroses e o desejo sexual era a motivação quase que exclusiva para o comportamento das pessoas. No início, Freud falava que o ser humano, até biologicamente (todos os seres vivos, no final), viveria sua existência na tensão entre dois princípios, ou instintos, primordiais: o princípio do prazer (instintivo e ligado ao id, às vezes relacionado como a libido) e o princípio da realidade (a limitação do prazer para tornar a vida possível, princípio ligado mais ao amadurecimento e, às vezes, ao superego). Mais tarde (na publicação de Além do Princípio do Prazer, 1920), ele passou a falar em outros dois princípios mais amplos, o princípio de vida e o princípio de morte, os quais ele denominou eros e tanatos, como os dois princípios que geram a tensão que move o ego. De qualquer modo, tanto o princípio do prazer quanto eros (princípio de vida) eram, para Freud, princípios instintivos, ligados à preservação da vida e da espécie, e sempre conectados ao apetite sexual (ver Os Instintos e Suas Vicissitudes, 1915).

Nem as crianças estariam livres desse apetite sexual instintivo – elas desejavam sexualmente seus pais. Freud apelou aqui para o complexo de Édipo, em que o filho deseja sexualmente a mãe e o complexo de Eletra, a inveja que a menina tem do pênis do menino. Naturalmente, quando esses desejos sexuais eram interrompidos, resistidos, negados, o resultado eram as neuroses, os traumas. As obras mais conhecidas onde ele sustenta seus argumentos são Sobre as Teorias Sexuais das Crianças (1908) e Uma criança é espancada - uma contribuição ao estudo da origem das perversões sexuais (1919), onde ele defende o surgimento das neuroses como resultado da repressão do desejo sexual.

Em que pese a importância de Freud, seu modelo e suas idéias têm sido largamente criticados e rejeitados por muitos estudiosos competentes. Todavia, algumas de suas idéias – como essa de que a repressão sexual é a causa de todas as neuroses e distúrbios – acabou se popularizando e é repetida por muitos que nunca realmente se preocuparam em examinar o assunto mais de perto.

Vou dizer por que considero esse argumento apenas como mais uma desculpa dos que procuram se justificar diante de Deus, da igreja e de si mesmos pelo fato de terem relações sexuais antes e fora do casamento. Ou pelo menos, por defenderem essa idéia.

1. Esse argumento parte do princípio que os evangélicos conservadores são contra o sexo. Contudo, essa idéia é uma representação falsa da visão cristã conservadora sobre o assunto. Nós não somos contra o sexo em si. Somos contra o sexo fora do casamento, pois entendemos que as relações sexuais devem ser desfrutadas somente por pessoas legitimamente casadas (ah, sim, cremos no casamento também). Foi o próprio Deus que nos criou sexuados. E ele criou o sexo não somente para a procriação, mas como meio de comunhão, comunicação e prazer entre marido e mulher. Há muitas passagens na Bíblia que se referem às relações sexuais entre marido e mulher como sendo fonte de prazer e alegria. O livro de Cantares trata abertamente desse ponto. Em Provérbios encontramos passagens como essa:

Seja bendito o teu manancial, e alegra-te com a mulher da tua mocidade, corça de amores e gazela graciosa. Saciem-te os seus seios em todo o tempo; e embriaga-te sempre com as suas carícias (Pv 5.18-19).

Não, não acredito que o sexo é somente para a procriação. Não, não sou contra planejamento familiar e o uso de meios preventivos da gravidez, desde que não sejam abortivos. Sim, o sexo é uma bênção, desde que usado dentro dos limites colocados pelo Criador.

2. Esse argumento, no fundo, acaba colocando a culpa em Deus, na Bíblia e na Igreja de serem uma fábrica de neuróticos reprimidos. Sim, pois a Bíblia ensina claramente a abstinência, a pureza sexual e a virgindade para os que não são casados, conforme argumentei no post Carta a Um Jovem Evangélico que Faz Sexo com a Namorada. Se a abstinência sexual antes do casamento traz transtornos mentais e emocionais, então, de acordo com os libertinos, deveríamos considerar esses ensinamentos da Bíblia como radicais, antiquados e inadequados. E, portanto, como meras idéias humanas de pessoas que viveram numa época pré-Freud – e como tais, devem ser rejeitadas e descartadas como palavra de homem e não Palavra de Deus. Ao fim, a contenção dos libertinos é mesmo contra a Bíblia e contra Deus.

3. Bom, para esse argumento ser verdadeiro, teríamos de verificá-lo estatisticamente, na prática. Pesquisa alguma vai mostrar que existe uma relação direta de causa e efeito entre abstinência antes do casamento e distúrbios mentais, neuroses e coisas afins. Da mesma forma que pesquisa alguma vai mostrar que os jovens que praticam sexo livre antes do casamento são equilibrados, sensatos, sábios e inteligentes. Pode ser que até se prove o contrário. Os tarados, estupradores e maníacos sexuais não serão encontrados no grupo dos virgens e abstinentes.Talvez fosse interessante mencionar nesse contexto o estudo conduzido na Universidade de Minessota por Ann Meir. De acordo com as pesquisas, o sexo estava associado a auto-estima baixa e depressão em garotas que iniciaram as relações sexuais (idade média de início 15-17 anos) sem relacionamento afetivo ou romântico.

4. A coisa toda é muito estranha. Funciona mais ou menos assim. Os libertinos tendem a considerar todo distúrbio que encontram como resultado de repressão dos desejos sexuais. Mas eles fazem isso não porque têm estatísticas, experiências ou históricos que provam tal teoria – mas porque Freud explica. Em vez de considerarem que esses distúrbios podem ter outras causas, seguem sem questionar a tese de Freud que tudo é sexo, desde o menininho de um ano chupando dedo até o complexo de Édipo.

O próprio Freud, na fase mais amadurecida de sua carreira, se questiona na obra Além do Princípio do Prazer (1920):

A essência de nossa investigação até agora foi o traçado de uma distinção nítida entre os “instintos do ego” e os instintos sexuais, e a visão de que os primeiros exercem pressão no sentido da morte e os últimos no sentido de um prolongamento da vida. Contudo, essa conclusão está fadada a ser insatisfatória sob muitos aspectos, mesmo para nós.


5. Embora a decisão de preservar-se para o casamento vá provocar lutas e conflitos internos no coração e mente dos jovens evangélicos, esses conflitos nada mais são que a luta normal que todo cristão verdadeiro enfrenta para viver uma vida reta e santa diante de Deus, mortificando o pecado e se revestindo diariamente de Cristo (Romanos 3; Colossenses 3; Efésios 4—5). Fugir das paixões da mocidade foi o mandamento de Paulo ao jovem Timóteo (2Timóteo 2:22). Essa luta contra a nossa natureza carnal não provoca traumas, neuroses, recalques e distúrbios. Ao contrário, nos ensina paciência, perseverança, a amar a pureza, a apreciar as virtudes e o que significa tomar diariamente a cruz, como Jesus nos mandou (Lucas 9:23). Os que não querem tomar o caminho da cruz, entram pela porta larga e vivem para satisfazer seus desejos e instintos.

Por esses motivos acima e por outros que poderiam ser acrescentados considero esse argumento – de que a abstenção das relações sexuais antes do casamento provoca complexos, neuroses, recalques – como nada mais que uma desculpa para aqueles que querem viver na fornicação. Não existe realmente substância e fundamento para essa idéia, a não ser o desejo de justificar-se ou desculpar-se diante de uma consciência culpada, da opinião contrária de outros ou dos ensinamentos da Escritura.

Os interessados em estudar mais esse assunto poderão aproveitar bastante o livro Sexo Não é problema – Lascívia, Sim – de Joshua Harris, pela Editora Cultura Cristã. 

Fonte: O Tempora, O Mores

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Carta a um jovem que faz sexo com a namorada

Por Augustus Nicodemus

[Os nomes foram trocados para proteger as pessoas. Embora algumas circunstâncias mencionadas na carta sejam totalmente fictícias, o caso é mais real do que se pensa...]

Meu caro Ricardo,

Ontem estive pregando em sua igreja e tive a oportunidade de rever João, nosso amigo comum. Não lhe encontrei. João me disse que você e a Raquel, sua namorada, tinham saído com a turma da mocidade para um acampamento no fim de semana e que só regressariam nessa segunda bem cedo.

Saí com o João para comer pizza após o culto e falamos sobre você. João abriu o coração. Ele está muito preocupado com você, desde que você disse a ele que tem ido com Raquel para motéis da cidade e às vezes até mesmo depois do culto de jovens no sábado à noite. Ele falou que já teve várias conversas com você mas que você tem argumentado defendendo o sexo antes do casamento como se fosse normal e que pretende casar com Raquel quando terminarem a faculdade.

Ele pediu minha ajuda, para que eu falasse com você, e me autorizou a mencionar nossa conversa na pizzaria. Relutei, pois acho que é o pastor de sua igreja que deve tratar desse assunto. Você e a Raquel, afinal, são membros comungantes dessa igreja e estão debaixo da orientação espiritual dela. Mas, João me disse que o pastor faz de conta que não sabe que essas coisas estão acontecendo na mocidade da igreja. Como sou amigo da sua família fazem muitos anos, desde que vocês freqüentaram minha igreja em São Paulo, resolvi, então, escrever para você sobre esse assunto, tendo como base os argumentos que você usou diante de João para justificar sua ida a motéis com a Raquel.

Se entendi direito, você argumenta que não há nada na Bíblia que proiba sexo antes do casamento. É verdade que não há uma passagem bíblica que diga "não farás sexo antes do casamento;" mas existem dezenas de outras que expressam essa verdade com outras palavras e de outras maneiras. Podemos começar com aquelas que pressupõem o casamento como sendo o procedimento padrão, legal e estabelecido por Deus para pessoas que desejam viver juntas (veja Mateus 9:15; 24:38; Lucas 12:36; 14:8; João 2:1-2; 1Coríntios 7:9,28,39), aquelas que abençoam o casamento (Hebreus 13:4) e aquelas que se referem ao divórcio - que é o término oficial do casamento - como algo que Deus aborrece (veja Malaquias 3:16; Mateus 5:31-32).

domingo, 25 de setembro de 2011

Guardar o dia de Sábado é uma lei para o cristão hoje?

Por John MacArthur

Acreditamos que as regulamentações que regem a observâncias do guardar o dia de sábado, no Antigo Testamento, são aspectos da lei cerimonial e não moral. Como tal, elas não estão mais em vigor, mas já passaram, juntamente com o sistema de sacrifícios, o sacerdócio levítico e todos os outros aspectos da lei de Moisés que prefigurou Cristo. Aqui estão as razões que sustentam nossa visão.

1. Em Colossenses 2:16-17, Paulo refere-se explicitamente ao guardar o dia de sábado como uma sombra de Cristo, que não é mais obrigatória desde que a substância (Cristo) veio. É bastante claro nos versos que o sábado semanal está em vista. A frase "nos sábados, nas luas novas e nas festas fixas" se refere aos dias santos do ano, meses e semanais do calendário judaico, mensal, dia anual, (cf. 1 Crônicas 23:31, 2 Crônicas 2:04; 31:3, Ezequiel 45:17; Oséias 2:11). Se Paulo estivesse referindo-se a datas cerimonial especiais de descanso nessa passagem, porque ele teria usado a palavra "sábado?” (Sabath) Ele já tinha mencionado as datas cerimoniais quando ele falou dos festivais e da lua nova.

2. O sábado era um sinal para Israel da aliança mposaica (Êxodo 31:16-17, Ezequiel 20:12; Neemias 9:14). Agora estamos sob uma Nova Aliança (Hebreus 8), já não estamos obrigados a observar o sinal da aliança mosaica.

3. O Novo Testamento não ordena aos cristãos a guardar o dia de sábado.

4. Em nossa única visão de culto, a igreja primitiva se encontrava no primeiro dia da semana (Atos 20:7).

5. Em nenhum lugar no Antigo Testamento as nações gentias foram ordenadas a guardar o dia de Sábado ou condenadas por não fazê-lo. Isso é estranho se a observância de guardar o dia sábado foi feita para ser um princípio moral eterno.

6. Não há nenhuma evidência na Bíblia de alguém que guardava o dia de sábado antes do tempo de Moisés, nem existem quaisquer comandos na Bíblia para guardar o dia de sábado antes da promulgação da lei no monte Sinai.

7. Quando os apóstolos se reuniram no Concílio de Jerusalém (Atos 15), eles não imporam o guarda o dia de Sábado sobre os cristãos gentios.

8. O apóstolo Paulo advertiu os gentios sobre diferentes pecados em suas epístolas, mas não guardar o dia de Sábado nunca foi uma das advertências.

9. Em Gálatas 4:10-11, Paulo repreende os gálatas por pensarem que Deus esperava que guardassem alguns dias especiais (incluindo o sábado).

10. Em Romanos 14:5, Paulo proíbe aqueles que guardavam o dia de sábado (estes eram sem dúvida cristãos judaicos) por condenar aqueles que não guardavam (os cristãos gentios).

11. Os pais da igreja primitiva, de Inácio a Agostinho, ensinoram que o Sábado do Antigo Testamento foi abolido e que o primeiro dia da semana (Domingo) seria o dia em que os cristãos deveria se reunir para o culto (contrário a reclamação de muitos adventista do sétimo dia que afirmam que o culto de domingo não foi instituído até o século IV).

12. O domingo não substituiu o sábado para ser dia de Sabath. Ao invés, o Dia do Senhor é um momento quando os crentes se reúnem para comemorar Sua ressurreição, que ocorreu no primeiro dia da semana. Cada dia, para o crente, é como um sábado, visto que nosso trabalho espiritual é o descanso na salvação do Senhor (Hebreus 4.9-11).

Enquanto estivermos seguimos o padrão de designar um dia da semana, para o povo do Senhor reunir em adoração, não nos referimos a isso como " guardar o dia de Sábado".

Tradução: Aeliton Lopes

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O Espírito Santo e a Hermenêutica

Por Daniel Wallace


Prefácio

Este curto artigo é uma tentativa preliminar na articulação do papel do Espírito Santo em relação à interpretação das Escrituras. Críticas e interações são bem-vindas. Deve-se lembrar, contudo, que estou dirigindo-me aos evangélicos. Aqueles com um padrão teológico diferente irão, tenho certeza, achar tantas críticas neste artigo, que eles não saberão por onde começar!


Introdução


A relação do Espírito Santo com a hermenêutica é uma questão polêmica entre os evangélicos hoje. A nível popular, sempre houve um grande mal-entendido sobre o papel do Espírito. Muitos cristãos acreditam que se eles simplesmente orarem, o Espírito Santo lhes dará a interpretação apropriada. Outros não estão tão preocupados com a interpretação do texto; eles se contentam em ter um significado idiossincrático do texto (“o que este versículo significa para mim…”). Tudo isto é a doutrina do ‘sacerdócio de todos os santos’ correndo à solta indiscriminadamente. Embora cada um de nós seja responsável diante de Deus pelo entendimento e aplicação da mensagem bíblica, isto de modo algum significa que uma mistura de ignorância compartilhada ou uma mera aproximação piedosa às Escrituras satisfaça o mandato divino.
Surpreendentemente, há também uma crescente, e grande lacuna entre estudiosos conservadores. James De Young, por exemplo, recentemente disse que “quando se trata dos métodos eruditos de interpretação da Bíblia, o Espírito Santo pode até estar morto.”1 Por que há tal polaridade? Há pelo menos quatro razões: (1) por causa da guinada em direção ao pós-modernismo (e assim, saindo do racionalismo e da lógica para a experiência como norma de interpretação), (2) por causa da falta de desejo em fazer-se estudos sérios, como David F. Wells assim expressou, (3) porque o pensamento evangélico de fato tem se alimentado demasiadamente no racionalismo, (4) porque o movimento evangélico está se deslocando em direção ao pós-conservadorismo, no qual a tolerância, ao invés de convicção, é o posicionamento adequado em muitas questões.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Sacrifício Cristão Radical

Por John Piper
 

Que Deus continue abençoando este piedoso homem e que muitas vidas sejam dedicadas ao Senhor do senhores, Rei dos reis.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Os Desigrejados

Por Augustus Nicodemus

Para mim resta pouca dúvida de que a igreja institucional e organizada está hoje no centro de acirradas discussões em praticamente todos os quartéis da cristandade, e mesmo fora dela. O surgimento de milhares de denominações evangélicas, o poderio apostólico de igrejas neopentecostais, a institucionalização e secularização das denominações históricas, a profissionalização do ministério pastoral, a busca de diplomas teológicos reconhecidos pelo estado, a variedade infindável de métodos de crescimento de igrejas, de sucesso pastoral, os escândalos ocorridos nas igrejas, a falta de crescimento das igrejas tradicionais, o fracasso das igrejas emergentes – tudo isto tem levado muitos a se desencantarem com a igreja institucional e organizada.

Alguns simplesmente abandonaram a igreja e a fé. Mas, outros, querem abandonar apenas a igreja e manter a fé. Querem ser cristãos, mas sem a igreja. Muitos destes estão apenas decepcionados com a igreja institucional e tentam continuar a ser cristãos sem pertencer ou frequentar nenhuma. Todavia, existem aqueles que, além de não mais frequentarem a igreja, tomaram esta bandeira e passaram a defender abertamente o fracasso total da igreja organizada, a necessidade de um cristianismo sem igreja e a necessidade de sairmos da igreja para podermos encontrar Deus. Estas idéias vêm sendo veiculadas através de livros, palestras e da mídia. Viraram um movimento que cresce a cada dia. São os desigrejados.