sábado, 20 de novembro de 2010

O Ofício do Profeta no Antigo Testamento

Por Eugene Merrill

Os profetas do Antigo Testamento desempenhavam algumas funções básicas:
  • Servir de intercessor entre Deus e a humanidade: Ele é profeta, e orará em seu favor, para que você não morra. Mas se não a devolver, esteja certo de que você e todos os seus morrerão (Gn 20.7);
  • Servir de porta-voz do Senhor: Ouçam as minhas palavras: Quando entre vocês há um profeta do SENHOR, a ele me revelo em visões, em sonhos falo com ele. Não é assim, porém, com meu servo Moisés, que é fiel em toda a minha casa. Com ele falo face a face, claramente, e não por enigmas; e ele vê a forma do SENHOR. Por que não temeram criticar meu servo Moisés? (Nm 12.6-8);
  • Aconselhar ou direcionar: Nesta cidade mora um homem de Deus que é muito respeitado. Tudo o que ele diz acontece. Vamos falar com ele. Talvez ele nos aponte o caminho a seguir. Saul disse a seu servo: Se formos, o que lhe poderemos dar? A comida de nossos sacos de viagem acabou. Não temos nenhum presente para levar ao homem de Deus. O que temos para oferecer? O servo lhe respondeu: Tenho três gramas de prata. Darei isto ao homem de Deus para que ele nos aponte o caminho a seguir. (Antigamente em Israel, quando alguém ia consultar a Deus, dizia: "Vamos ao vidente, pois o profeta de hoje era chamado vidente.) (1Sm 9.6-9);
  • Falar de coisas futuras: Mas talvez vocês perguntem a si mesmos: Como saberemos se uma mensagem não vem do SENHOR? Se o que o profeta proclamar em nome do SENHOR não acontecer nem se cumprir, essa mensagem não vem do SENHOR. Aquele profeta falou com presunção. Não tenham medo dele. (Dt 18.21,22; Veja também 2Sm 7.4-16).

Na época do surgimento profético canônico, o ministério profético passou a ser associado a dois propósitos:
  • Profecia: fala do ministério e da mensagem dirigidas basicamente à audiência contemporânea do profeta;
  • Previsão: sem negligenciar o presente, anseia pelo desenrolar dos eventos futuros, independentes de quais sejam eles, quer ameaças de julgamento quer promessas de salvação e bênçãos.
De qualquer modo, o verdadeiro profeta de Deus era reconhecido como tal porque tinha uma posição independente, sem qualquer ligação com os poderes político e religioso – na verdade, em oposição a esses poderes políticos, se isso fosse necessário – e ele proclamava a palavra do Senhor com autoridade, convicção e precisão em sua previsão.

As mensagens os profetas canônicos estavam invariavelmente alinhadas com a Torá. E este era o fundamento da autoridade deles e fonte de reflexão teológica deles. Os temas de seus escritos, portanto, são temas da Torá; e, na realidade, embora os profetas tenham isso além da essência da revelação mosaica, eles jamais a contradisseram. Ao contrário, eles estruturaram sobre ela, desenvolvendo as ideias teológicas com maturidade crescente e percepções elaboradas, conforme o Espírito as direcionava.

Fonte: MERRILL, Eugene H. Teologia do Antigo Testamento. Shedd Publicações, pp.473-474.

Prefácio de Ageu, Zacarias e Malaquias

Por Eugene Merril
Escrito por ele para seu comentários no livro dos três profetas em questão.

Os livros de Ageu, Zacarias e Malaquias, escritos como estavam no período pós-exílico de Israel, foram destinados, entre outras finalidades, para levar esperança a um povo cuja vida nacional, e até mesmo pessoal, tinha sido abalada pela destruição de Jerusalém pela Babilônia, bem como também pela destruição do Templo e a subsequente deportação de grande parte da população judaica. Essa esperança não estava centrada apenas no retorno dos exilados e a restauração de sua comunidade religiosa e política, mas antes de tudo, na promessa de um redentor escatológico messiânico e governante.

As razões supracitadas fazem estes breves escritos proféticos particularmente relevantes e benéficos para os modernos cristãos, pois assim eles podem ver a fidelidade de Deus à Sua aliança para com Seu povo, uma fidelidade apresentada na vinda de Jesus Cristo, levando seus corações a depositar confiança de que o Deus que restaurou Israel tempos atrás também pode restaurá-los em tempo de declínio espiritual e tragédia pessoal. Esta tem sido a minha experiência, pelo menos, como eu tenho sido confrontado com o poder e a presença do Deus de Israel e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. O empreendimento de um comentário nestes livros já provou ser mais do que uma simples tarefa. Ao invés disso, ele se transformou em uma oportunidade de eu lembrar com frescor a forma da perfeição dos propósitos eternos de Deus.

Fonte: Bible.org

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O Dilema da Criação

Por Marcelo Berti

Estudar o início do livro de Gênesis certamente exige de nós conhecimento: Muitas são as teorias que tentam compreender o que se passa nos primeiros versos de Gênesis. Alguns o entendem como uma poesia; outros preferem encontrar nele um relato apologético das origens do mundo; outros associam suas crenças científicas ao relato enquanto outros ainda preferem identificar nesse um relato inspirado por Deus de acordo com o conhecimento de Moisés, seu agente intermediário.

É bem verdade que todos os que se aproximam do texto tentam verificar-lhe a beleza e veracidade, entretanto, por não poderem equalizar ambas as características teorizam para harmonizar suas crenças com as escrituras que defendem. De fato, não existe um manual inspirado por Deus que defina como o texto deve ser lido, mas há certamente algumas observações de natureza hermenêutica e histórica que poderiam nos auxiliar a observar o texto sem violar-lhe a beleza e veracidade:
  1. Gênesis 1 não é uma poesia hebraica: A poesia hebraica tal como vista nos livros poéticos do antigo testamento tem forma e métrica extremamente oposta àquela encotrada aqui. Enquanto os paralelos hebraicos (Pv.10.27), suas rimas ideológicas (Pv.16.4) fazem parte da poesia hebraica, Gênesis apresenta-se com um texto lógico e estruturado historicamente.
  2. Gênesis 1 não é um tratado primariamente apologético: Um dos frequêntes equívocos que se comete ao ler Gênesis 1 é entende-lo como primariamente apologético. Muito embora, Gênesis 1 tenha grande valor apologético, esse não parece o propósito do autor do relato, nem mesmo a compreensão dos seus primeiros leitores: Gênesis foi escrito para o povo de Deus, não para os infiéis. “Aqueles que se recusam a aceitar o criacionismo não o fazem por falta de provas (Rm.1.18ss), ou por causa do seu grande conhecimento (Sl.14.1), mas por falta de fé (Hb.11.3). Gênesis é mais uma declaração que uma defesa[1]”.
  3. Gênesis 1 não é um tratado científico: Ainda que o Deus revelado nas escritas é o mesmo que se revela na natureza e que Sua Auto-revelação não é contraditória, Deus revelou-se a Moisés (ou a outras pessoas antes dele que preservaram sua declaração oralmente) de modo que pudesse ser compreendido corretamente diante do conhecimento que ele dispunha. Não faria sentido para Deus manifestar-se a Moisés de acordo com o conhecimento científico de nossa era, pois seus leitores primários seriam incapazes de compreendê-lo. Portanto, ainda que o valor científico desse relato ainda seja fundamental para a apologética cristã, esse não é o caráter fundamental desse texto.
  4. Gênesis 1 é o relato inspirado por Deus para revelar-se ao Seu povo: Eventualmente a falta de atenção ao contexto histórico de Gênesis nos força a compreender o texto for a de sua origem: Aqueles que saíam do Egito, certamente precisavam conhecer o Deus que os retirava da escravidão. O Grande “Eu Sou” também é o criador e originador de todas as coisas, povos e culturas, e precisava ser conhecido mais amplamente.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Definindo a Obra da Criação

Por Marcelo Berti

Assumir que Deus é um Deus Criador, exige de nós alguns reconhecimentos: (1) que Deus é livre para exercer sua vontade de criar; (2) que é poderoso para exercer poder suficiente para criar; (3) que é anterior e superiror a Sua criação; (4) que Sua criação é posterior e inferior a Si mesmo; (5) se Ele é o Deus criador Ele é o criador de todas as coisas; (6) e que fez o que fez para evidenciar sua Glória. 

Tendo considerado isso, devemos admitir que O Deus apresentado pelas escrituras é sobremodo nobre e grande, pois é aquele que da inexistência trouxe o Universo. Por isso, definir a criação é de alguma forma também definir a Deus. Portanto, entendo que a Obra da Criação é a fruto da livre da ação do Deus trino em exercer seu poder em trazer à existência tudo o que existe do nada para louvor da sua Glória.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Atos 18.18-28 Comentário Popular

 Por Thiago Zambelli




O comentário abaixo pode ser visto e baixado em PDF (Clique).


18 Paulo permaneceu em Corinto por algum tempo. Depois despediu-se dos irmãos e navegou para a Síria, acompanhado de Priscila e Áqüila. Antes de embarcar, rapou a cabeça em Cencréia, devido a um voto que havia feito.
Paulo permaneceu em Corinto por um ano e meio, durante sua segunda viagem missionária (18.11). Despediu-se dos irmãos e partiu para Cencréia, porto no istmo[1] de Corinto, junto de Priscila e Áquila. Em Cencréia, onde também havia uma igreja (Rm 16.1), Paulo rapou a cabeça devido um voto que fizera. Seu destino final era a Síria, onde estava a igreja de Antioquia, ponto de partida de suas três primeiras viagens.
Sobre o voto: apesar de ser gramaticalmente possível que tenha sido Áquila quem fez o voto, o contexto não o permite. A Bíblia nos fala sobre vários votos.  Jacó fez um voto (barganha), Absalão, Jefté, Ana e outros fizeram. Moisés escreveu várias leis relativas a votos. O voto de nazireu (Nm 6), por exemplo, possivelmente o mais conhecido deles, levava o israelita a se abster de vários líquidos e alguns alimentos. Impedia-o de estar na presença de cadáveres e o obrigava a deixar o cabelo crescer, para depois ser raspado e queimado no devido local, na entrada da Tenda do Encontro (Nm 6.18). Alguns comentaristas como John Gill, Matthew Henry, João Calvino e até mesmo o escritor de um comentário católico[2] creem que Paulo fez o voto de Nazireu, mas como alguém ciente que era livre da Lei. Por outro lado, em outros comentários encontramos outro ponto de vista: Vincent’s  Word Studies, New People’s Testament, Robertson Word Pictures, Jamieson, Fausset and Brown Commentary,[3] que dizem ser improvável (ou pouco provável) que fosse o voto de nazireu em função do requerimento da Lei dele ter de ser feito em Jerusalém. Ademais, alegam que este voto, de rapar a cabeça, era comum entre os judeus e gentios como sinal de agradecimento por livramentos. [4]
 
Para não deixar minha opinião em branco, faço minhas as palavras do autor de New People’s Testament:
“O porquê de ele ter feito o voto, por quanto tempo, e o que rapar a cabeça tem a ver com isso são questões de conjectura. O voto de nazireu requeria o rapar da cabeça em Jerusalém e o cabelo cortado oferecido no templo. Este não podia ser o voto de nazireu.”

Contra este argumento, todavia, John Stott, favor do ponto de vista que Paulo fez um voto de nazireu, diz que ele poderia cortar o cabelo e ser depois oferecido em Jerusalém e por isso o motivo da aparente pressa de Paulo nos vv.20-21.[5] Ademais, tanto Stott como alguns outros a favor deste ponto de vista, dizem que ele fez isso para alcançá-los com o Evangelho (cf. 1Co 9.20). Pessoalmente, não acredito que, à luz do texto de Números 6, este pudesse ser um voto de Nazireu, como já dito supra. Ainda assim, numa coisa parece que os comentaristas concordam: Paulo não fez o voto por legalismo.